O Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga foi reconhecido em 2021 como o primeiro Território e Área Conservada por Comunidades Indígenas e Locais (TICCA) do Brasil. Este reconhecimento importante só foi possível devido à presença e ao modo de vida dos quilombolas Kalunga, os quais estão neste território há mais de três séculos. A integridade da área e a conservação da sua biodiversidade é uma consequência das relações estabelecidas entre os quilombolas e a natureza ao seu redor, e do conhecimento do bioma por eles gerados. Entretanto, a integridade e a proteção da biodiversidade promovida pelos Kalungas em seu território, não estão asseguradas. Com as novas dinâmicas que cercam o território, como o avanço do agronegócio, da mineração e das pequenas centrais hidrelétricas, é necessário que tenham apoio para enfrentar não apenas conflitos, mas também todo tipo de relação de poder na região. Exemplo deste risco concreto foi a invasão de suas terras por pecuaristas da região em 2017 e em 2020 (AQK, 2022). No sítio vivem aproximadamente 1.600 famílias, distribuídas em 39 comunidades numa área de 262.000 ha. Fortalecer as bases do conhecimento do bioma, dos conceitos teóricos sobre Agroecologia e a Sociobiodiversidade são fundamentais para apoiar diferentes estratégias de permanência, sobrevivência e resistências das Comunidades Kalungas em seu território. Com uma equipe interdisciplinar de diferentes unidades da UnB (FUP, CDS, FGA e FT), o projeto pode fornecer condições para que as comunidades do Território Kalunga se apropriem de dados e informações de pesquisas já realizadas pela Universidade de Brasília, para otimizar práticas agroextrativistas e de comercialização, busca de diferentes mercados para o escoamento da produção, marketing dos produtos existentes, boas práticas face a exigência do mercado, com foco maior no acesso aos mercados institucionais como PAA e PNAE, dentre outras, e neste escopo possibilitar melhorias na renda das famílias e da comunidade em geral. Consideramos que estes são atributos importantes para que o povo Kalunga permaneça e viva com dignidade em seu próprio território. Esta proposta também possibilitará um retorno para os cursos de graduação (Gestão do Agronegócio, Licenciatura em Educação do Campo, Engenharia de Produção e Ciências Ambientais) e pós-graduação (Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural; Desenvolvimento Sustentável; e Tecnologias), por meio do envolvimento de estudantes oriundos dessa região, mas também dos referidos cursos e programas. Este projeto tem apoio da Associação Quilombola Kalunga (AQK) e da Associação EPOTECAMPO. Do ponto de vista da academia, o projeto permitirá uma retroalimentação dos conteúdos trabalhados em diferentes disciplinas, permitindo contextualizar e refletir com os estudantes, tanto da graduação como da pós-graduação, os diferentes vieses do desenvolvimento a partir de uma realidade local. A restituição em sala de aula dos resultados deste trabalho, inclusive com participação de atores da comunidade Kalunga, propicia o enriquecimento do processo de ensinoaprendizado de várias formas: oportunidade de identificar problemas reais vivenciados por povos e comunidades tradicionais vizinhas ao Distrito Federal; oportunidade de entender as dinâmicas das relações sociais e refletir de forma a contribuir no processo coletivo; confrontar a realidade com as teorias apreendidas em aula. A imersão na realidade para refletir sobre as teorias aprendidas é a melhor forma de consolidar os conhecimentos, mas igualmente de reformulá-los, de avançar em seus pressupostos. Na perspectiva de formação no ensino superior, existe uma mudança nos métodos de ensino-aprendizagem, no que se refere à estrutura de disciplinas tradicionais com currículos focados, para uma abordagem tendo como concepção metodológica a aprendizagem baseada em problema, ou projeto. A interação de discentes de graduação e pós-graduação com a Comunidade Kalunga em seu território permite a compreensão de sua realidade e a construção de soluções de forma participativa com a comunidade. Acreditamos que desta forma o projeto contribui para a construção de um conhecimento interligado diretamente à população local, permitindo em certo nível, de promover reflexões em torno de políticas públicas ou orientação de pesquisas que apoiem o desenvolvimento rural sustentável, tendo a UnB como protagonista neste processo.
Estudantes, Técnicos e Professores que trabalhem com as Comunidades Kalunga
Agricultores familiares do Território Kalunga
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