Banca de DEFESA: Marta Aguiar de Souza

Uma banca de DEFESA de DOUTORADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE : Marta Aguiar de Souza
DATA : 20/05/2026
HORA: 15:00
LOCAL: Sala Roberto Cardoso- Muliuso II
TÍTULO:

A FOME COMO VIOLENCIA EPISTÊMICA – Um olhar decolonial sobre os processos de construção e desconstrução de fome junto a comunidades tradicionais no Brasil e no México.


PALAVRAS-CHAVES:

Fome, epistemologias do sul, conhecimento tradicional, agriculturas tradicionais, alimentação.


PÁGINAS: 150
RESUMO:

As formas de lidar com a terra, a água, as plantas e os animais praticadas pelos povos tradicionais ao longo dos últimos 12.000 anos foram responsáveis pela enorme variedade de cereais, frutas, verduras e animais que compõe nossa alimentação. A essa enorme variedade de cereais, frutas, verduras, fibras, que chegou até o nosso tempo chamamos agrobiodiversidade, que, nos espaços urbanos, pouco se conhece. A agrobiodiversidade é o resultado da capacidade intrínseca de produção de alimentos dos povos de um determinado território. Cada povo, em seu lugar, vai coletar, manter, produzir alimentos em diálogo com sua terra, suas águas, sua fauna, sua flora e seu clima. No entanto, a imensa diversidade agrícola construída ao longo de milênios na América Latina sofreu e sofre danos profundos.Dentre o conjunto de fatores que atacaram e atacam a agrobiodiversidade latino-americana, desde as guerras de invasão aos territórios dos povos originários no período colonial, passando pela usurpação de terras e escravização dos povos nativos, há também o contínuo trabalho de desqualificação das epistemologias dos povos locais e posteriormente a desqualificação dos conhecimentos dos povos africanos que chegaram a América escravizados. No caminho para colonizar o colonizador avança amparado em sua ignorância sobre a fauna e a flora, bem como de toda a dinâmica do clima, impondo outras formas de fazer agricultura e de se alimentar. As violências contra os saberes dos colonizados não só contribuiu e contribui para a redução da diversidade das plantas cultivadas, ferindo a cultura alimentar, violentando modos de vida e suas agriculturas como instituiu processos que construíram e constroem fome em toda América Latina. A fome não é um fenômeno natural. Natural aqui numa perspectiva eurocêntrica na qual o humano está fora da natureza e, sendo assim, o entendimento de natural fica como algo decorrente de leis da natureza e nã das ações humanas. Pois bem, como já nos apontou Josué de Castro no magistral “Geografia da fome. O dilema brasileiro: pão ou aço” (CASTRO, 1946) a fome coletiva é uma construção das ações humanas e infelizmente um sofrimento que aflige milhões de pessoas. Em dados recentes mais de 65 milhões de pessoas na América Latina sofrem a violação do Direito Humano a Alimentação, o Brasil amarga o índice de 33 milhões de pessoas com fome. Esta violência é o resultado de diversas ações colonizadoras que se atualizam ao longo dos últimos 500 anos. Os projetos e programas de combate à fome na contemporaneidade, ainda que por vezes se apresentem razoavelmente bem sucedidos, não conseguem, de fato, resolver o problema. Em sua maioria estão ancorados numa perspectiva de cidadania regulada, ou seja, dependem de ações de governo, que na realidade do atual governo não tem o combate a fome como uma necessidade. Para além das questões agrárias, econômicas e políticas relacionadas aos processos de construção da fome no continente latino americano, a grande questão é que as ações para saná-la partem de perspectivas fundadas no pensamento eurocêntrico/desenvolvimentista no qual a fome é naturalizada e as ações para combatê-la partem de pressupostos epistêmicos nos quais toda a compreensão da vida é definida por teorias do conhecimento que geram um tipo de pensamento/ação onde a presença de excluídos não é um obstáculo a ser superado mas sim um elemento constituinte da vida social. É o que Boaventura de Souza Santos define como Pensamento Abissal, que cria dois mundos distintos, cujas ancoras foram lançadas via os aparatos da proposta colonizadora ibérica. Para este autor o pensamento colonial/moderno opera mediante linhas que dividem o mundo em humano (europeu) e sub- humano (colonizados). E nesta perspectiva se faz elementar o desprezo por formas de conhecimento construídas fora da racionalidade eurocêntrica. Assim, a base epistemológica para a intervenção no real nas sociedades colonizadas será exclusivamente a base epistemológica do colonizador. E todo conhecimento sobre o território, todo o conhecimento sobre produção de alimentos, melhoramento genético de plantas, conservação de sementes, as culturas alimentares, as diversas relações com os biomas, os conhecimentos climáticos dos povos originários, bem como suas cosmovisões que estruturam suas epistemologias são tratadas como inválidas. Ainda que muitos destes conhecimentos foram apropriados pelo colonizador, aplicar estes conhecimentos respeitando sua complexidade e reconhecendo sua origem ainda hoje é algo em processo, que corre lento e não invariavelmente bem aceito. As pesquisas de Josué de Castro, já na primeira metade do século XX, nos apontaram a realidade da construção social da fome. Josué de Castro considerou a fome como uma manifestação biológica de um fenômeno social, econômico e político. E, sendo assim, um fenômeno que prescinde de uma abordagem multidisciplinar para ser compreendido e, quiçá, eliminado. Este projeto de pesquisa deseja avançar no caminho aberto por Josué de Castro, e nesta senda ampliar o debate sobre a percepção da fome como elemento importante para construção e sustentação da colonialidade especialmente em seus aspectos conectados a colonialidade do saber e do ser. Para pavimentar este caminho a pesquisa se baseia nas investigações da segunda metade do século XX da antropologia da alimentação, dos estudos da ciência da nutrição sobre soberania alimentar e alimentação como direito humano, da etnoecologia, da etnopedologia, da geografia e do pensamento decolonial em busca de apresentar as bases epistemológicas da construção da fome e seus desdobramentos no Brasil e no México. A pesquisa também vai se dedicar a investigar os caminhos de desconstrução da fome a partir de outras epistemologias, pontuando um diálogo entre modos de construção científica tendo como rota as conexões entre sistemas agrícolas tradicionais, conhecimento tradicional e alimentação.


MEMBROS DA BANCA:
Externa à Instituição - Nadja Maria Gomes Murta
Presidente - 3356294 - ELAINE MOREIRA
Interno - 1999291 - MARTIN LEON JACQUES IBANEZ DE NOVION
Interna - 1247861 - NATACHA SIMEI LEAL
Externa à Instituição - PATRÍCIA GOULART BUSTAMANTE - EMBRAPA
Notícia cadastrada em: 17/04/2026 09:53
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