Álbuns e atlas maricas y transviados: memória LGBTIA+ e fotografia entre os anos 1950 e 1980 no Brasil e na Argentina
Movimento LGBTIA+ latino-americano; Fotografia; Rastro; Memória LGBTIA+; Estudos Comparados.
Os primeiros grupos homossexuais organizados na Argentina e no Brasil surgem com uma década de diferença: ao final dos anos 1960 e ao final dos 1970, respectivamente. Embora os dois países estivessem em momentos distintos na relação entre sociedade civil e regime autoritário, ambos os movimentos iniciam suas atuações sob ditaduras e traçam o surgimento de uma figura militante inédita. São poucas as fotografias que retratam esses primeiros passos. A partir de uma perspectiva comparada, esta tese busca resgatar algumas dessas imagens e refletir sobre as contribuições da linguagem fotográfica para os estudos sobre memória LGBTIA+ no Brasil e na Argentina entre meados dos anos 1950 e dos 1980, abordando o início da militância e as redes imediatamente anteriores a ela. A entrada nas imagens se dá a partir de dois vetores complementares: um voltado para as imagens individualmente e outro que as põe em relação. Busco aqui produzir uma espécie de “álbum imaginado” (Koutsoukos, 2010), um atlas marica y transviado, realizando um exercício visual de montagem que marca aproximações e diferenças, em diálogo com a ideia de que “uma epistemologia e heurística do visual” (Bruno, 2019) podem trazer contribuições para o campo dos estudos comparados sobre a América Latina. E o inverso: que os estudos comparados podem contribuir para pensar as imagens. A memória LGBTIA+ é retomada aqui a partir de reportagens, documentos de grupos organizados, depoimentos e acervos pessoais de ex-militantes. Os principais arquivos consultados na Argentina foram o Centro de Documentación e Investigación de la Cultura de Izquierdas (CeDInCI), a coleção Crónica da Biblioteca Nacional Mariano Moreno e o Archivo Nacional de la Memoria (ANM), e, no Brasil, o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) e a Biblioteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional. Em paralelo, realizei algumas entrevistas com ex-militantes de grupos organizados. O recorte espacial se concentra na produção visual de São Paulo e Buenos Aires, com imagens pontuais do Rio de Janeiro, cidades que compartilham uma forte rede prévia de homossociabilidade que pavimentou o caminho dos primeiros grupos. Analiso imagens dessas redes prévias e de grupos pioneiros como a Frente de Liberación Homosexual e a Comunidad Homosexual Argentina, na Argentina, e o grupo Somos, no Brasil, procurando marcar de que maneiras que a formação de novos coletivos políticos organizados na cena pública afetaram as imagens da homossexualidade. O trabalho propõe, ainda, pensar o caráter indicial da fotografia através da noção de direito ao rastro, como possibilidade para uma comunidade que frequentemente teve seu acesso à memória coletiva negado ou até apagado.