A Epistemologia Territorial de Povos e Comunidades Tradicionais – enação, envolvimento e biointeração como fundamentos da sustentabilidade
Epistemologia territorial; enação; biointeração; conhecimentos tradicionais; ontologias relacionais; reservas extrativistas.
O presente projeto de tese investiga as relações entre território, conhecimento e modos de existência de povos e comunidades tradicionais, a partir da articulação entre os conceitos de enação, desenvolvidos por Humberto Maturana e Francisco Varela, e de biointeração, formulado por Antônio Bispo dos Santos. Parte-se da compreensão de que os conhecimentos tradicionais não constituem repertórios abstratos ou descontextualizados, mas epistemologias territorializadas produzidas nas relações de envolvimento, permanência, memória e interação estabelecidas entre comunidades e os ambientes que habitam. Nesse sentido, a pesquisa dialoga com autores como Arturo Escobar, Ailton Krenak, José Jorge de Carvalho, Rodney William e Malcom Ferdinand para problematizar os processos históricos de colonialidade que hierarquizaram formas de conhecimento e consolidaram racionalidades dissociadas entre humanidade, território e natureza. O estudo busca compreender de que maneira as relações territoriais de povos e comunidades tradicionais produzem formas específicas de conhecimento, organização da vida e interação socioambiental, bem como os tensionamentos gerados no encontro entre essas epistemologias e as lógicas hegemônicas de desenvolvimento. Para isso, serão analisadas experiências em três Reservas Extrativistas: a Reserva Extrativista Marinha de Soure, no Pará; a Reserva Extrativista Baía do Iguape, na Bahia; e a Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, selecionadas por sua diversidade socioterritorial e potencial comparativo. Metodologicamente, a pesquisa combina revisão bibliográfica e documental com investigação etnográfica de caráter participativo, utilizando entrevistas semiestruturadas, observação participante, oficinas comunitárias e instrumentos consolidados como o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC). Ao articular epistemologia, territorialidade e experiência vivida, a pesquisa propõe compreender como diferentes formas de conhecimento emergem das relações entre comunidades, memória, ancestralidade e território, contribuindo para os debates sobre sustentabilidade, colonialidade e ontologias relacionais.