Adaptação climática e abordagem Nexus: perspectivas regionais e locais no Semiárido brasileiro
Abordagem Nexus, Vulnerabilidade, Adaptação climática, Semiárido brasileiro
O Semiárido é uma das regiões brasileiras mais vulneráveis climaticamente, com escassez hídrica e secas severas. A progressiva degradação ambiental, juntamente com as mudanças climáticas projetadas, podem agravar ainda mais este quadro. A agricultura familiar, responsável pela maior parte da produção de alimentos consumidos na região, é um fator crucial no combate à pobreza, exigindo estratégias de adaptação e resiliência. Contudo, o acesso desigual aos recursos naturais, a perda dos meios de subsistência e dos rendimentos rurais na agricultura familiar exigem soluções intersectoriais. A aplicação da abordagem Nexus ganha relevância no enfrentamento desses desafios, promovendo sinergias e minimizando conflitos entre os setores de recursos hídricos, de energia e de alimentos. Com base nessa abordagem, os dois estudos de caso presentados analisam a segurança alimentar, hídrica e energética, inicialmente em uma escala macrorregional (MATOPIBA) e, seguidamente, em uma escala local (Assentamento Jacaré-Curituba). Por meio da aplicação de métodos quantitativos no primeiro estudo e de métodos mistos no segundo estudo, o objetivo geral deste trabalho é o de contribuir para a operacionalização da abordagem Nexus sob a perspectiva da vulnerabilidade e da adaptação climática no Semiárido, fundamentado pela identificação de potenciais conflitos no uso dos recursos hídricos pela agricultura industrial e a geração de energia em escala macrorregional e a compreensão das condições de desenvolvimento, percepções e sensibilidades dos agricultores familiares em escala microrregional. No primeiro estudo verifica-se que a expansão da agricultura industrial e a operação das usinas hidrelétricas concorrem para o uso intensivo dos recursos naturais, gerando impactos significativos na gestão hídrica e na preservação dos ecossistemas. No segundo estudo, os resultados quantitativos indicam índices de segurança alimentar e segurança hídrica com valores medianos em 3 das 4 agrovilas, alinhados com as condições socioeconômicas. Por sua vez, os resultados qualitativos realçam a ausência de mercado estruturado que impede a comercialização dos alimentos, a falta de qualidade e disponibilidade de água para consumo e produção e a preocupação com gastos de energia nas residências e lotes produtivos. Em diferentes escalas, ambos os estudos salientam a necessidade de articulação entre os setores de recursos hídricos, de energia e de alimentos para o desenvolvimento de políticas públicas sustentáveis e socialmente justas, que conciliem as necessidades regionais e locais com as demandas nacionais e internacionais, promovendo uma governança mais eficaz e adaptada às realidades do Semiárido. Conclui-se com a identificação de limitações e recomendações para trabalhos de pesquisa futuros.