Efeitos da toxina Ap1a isolada da peçonha da caranguejeira Acanthoscurria paulensis sobre a condutância de canais de cálcio dependentes de voltagem
Peçonha de aranha; neuropeptídeos; canais iônicos; eletrofisiologia.
Peçonhas de aranhas constituem uma rica fonte de peptídeos com elevado potencial biotecnológico, especialmente pela capacidade de modular canais iônicos dependentes de voltagem. Entre esses alvos, os canais de cálcio (CaV) exercem funções centrais na transmissão sináptica, na contração muscular e na regulação de diversos processos celulares. A toxina Ap1a, isolada da peçonha da aranha Acanthoscurria paulensis, é um peptídeo cuja ação farmacológica ainda não está completamente elucidada. Evidências prévias demonstram que a Ap1a provoca paralisia dose-dependente em Spodoptera frugiperda, interfere na transmissão do circuito da Fibra Gigante de Drosophila melanogaster, sugerindo atuação em junções neuromusculares, e induz convulsões e insuficiência respiratória em camundongos, quadro compatível com disfunções na liberação de neurotransmissores. Considerando que esses processos dependem criticamente do influxo de Ca²⁺ mediado por canais CaV, alvos recorrentes de toxinas de aranhas, o presente trabalho teve como objetivo caracterizar a atividade eletrofisiológica da Ap1a sobre diferentes subtipos desses canais. A peçonha foi obtida por eletroestimulação, fracionada e purificada por RP-HPLC, e a identidade do peptídeo foi confirmada por espectrometria de massas MALDI-TOF/TOF. Ensaios de patch clamp na configuração whole-cell foram realizados em células HEK293T expressando os canais CaV1.2, CaV2.1, CaV2.2, CaV2.3 e CaV3.1, utilizando protocolos de ativação, inativação – apenas CaV3.1 – e análise de inibição de correntes. A Ap1a apresentou massa monoisotópica experimental de 5457,77 Da e elevado grau de pureza. Nos canais CaV2.1, a toxina, na concentração de 500 nM, reduziu a amplitude das correntes em 15,34 ± 3,29%, enquanto nos canais CaV2.2 a redução foi de 16,08 ± 2,61%, ambos efeitos estatisticamente significativos, sem alterações relevantes na cinética de ativação. Em contraste, não foram observados efeitos funcionais detectáveis sobre os canais CaV1.2, CaV2.3 e CaV3.1. Em conjunto, os resultados demonstram que a Ap1a exerce um efeito modulador específico e moderado sobre canais da família CaV2, indicando seletividade parcial entre subtipos de canais de cálcio. Esses achados reforçam o potencial da Ap1a como ferramenta molecular para o estudo da fisiologia de canais CaV e como candidata em pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos moduladores farmacológicos. Estudos adicionais serão necessários para elucidar os determinantes moleculares dessa interação e avaliar sua ação sobre outros subtipos de canais.