ETNOBOTÂNICA HISTÓRICA DOS KARAJÁ DO CERRADO: Um Estudo da Relação entre Cultura e Biodiversidade
Acervos digitais; Iny; Inventário Botânico; Othon Machado; Preservação Cultural
A etnobotânica, como campo interdisciplinar, investiga a complexa relação entre as sociedades humanas e o reino vegetal, sendo a etnobotânica histórica fundamental para resgatar saberes ancestrais. Este estudo se insere nesse contexto ao analisar o vasto conhecimento tradicional do povo Karajá, que habita as regiões do Cerrado às margens do Rio Araguaia, um bioma de alta biodiversidade e culturalmente relevante. A cultura Karajá e o Cerrado, no entanto, enfrentam crescentes ameaças, o que torna urgente a preservação de seu patrimônio imaterial. O estudo objetivou analisar a relação histórica entre cultura e biodiversidade no Cerrado, com foco no conhecimento etnobotânico tradicional do povo Karajá, a partir da revisão e atualização do inventário botânico de Othon Xavier de Brito Machado. A metodologia consistiu no levantamento das plantas da obra póstuma de Machado, "Botânica: Plantas do Brasil Central (1954)", cruzando dados de referências diretas com informações de acervos digitais de herbários para confirmar e atualizar a nomenclatura científica das espécies com base na Flora e Funga do Brasil.. A atualização nomenclatural resultou em um inventário final composto por 198 táxons, com destaque para a diversidade de famílias como Fabaceae, Apocynaceae, Malpighiaceae, Bignoniaceae, Polygalaceae, Arecaceae e Cyperaceae. O levantamento etnobotânico classificou os usos das plantas pelos Karajá, atribuindo pontuações conforme a relevância do uso (principal ou secundário). A análise dessas categorias, que abrangeu 59 espécies de uso, demonstrou que a finalidade medicinal é a mais representativa, correspondendo a 39,2% dos usos e envolvendo tratamentos preparados como bebidas a partir de folhas, cascas e raízes coletadas. A finalidade alimentar constitui a segunda maior categoria, com 33,1% dos usos, englobando 22 espécies, incluindo frutos comestíveis, condimentos e algumas espécies domesticadas. Em comparando o uso por família, a análise mostra a dominância da Arecaceae (20,8%) e Fabaceae (13,9%), seguidas por Annonaceae, Bignoniaceae e Dilleniaceae (11,1%). Este percentual elevado é reflexo do uso múltiplo de espécies cruciais como Hancornia speciosa, Mauritia flexuosa, Curatella americana, e Hymenaea courbaril, sublinhando a profunda integração dos Karajá com o Cerrado e a importância deste patrimônio florístico. A pesquisa reafirma que a valorização e a proteção dos saberes Karajá são cruciais não apenas para a conservação da biodiversidade do Cerrado, mas também para garantir a sobrevivência cultural deste povo, em face dos conflitos territoriais e da degradação ambiental.