A dinâmica do fogo no Cerrado em uma paisagem em transformação: uma análise espaço-temporal de 1985 a 2025
Bioma Cerrado; Dinâmica do Fogo; Sensoriamento remoto; Uso e cobertura da terra; Governança territorial.
O bioma Cerrado, reconhecido como a savana mais biodiversa do mundo, tem experimentado transformações profundas em seus regimes de fogo devido à rápida expansão agropecuária e às mudanças climáticas. Esta tese teve como objetivo investigar a dinâmica espaço-temporal do fogo no Cerrado entre 1985 e 2025, integrando produtos de sensoriamento remoto, séries temporais de áreas queimadas e dados de uso e cobertura da terra (LULC), estruturando-se em três artigos científicos interdependentes. A avaliação comparativa entre produtos de sensoriamento remoto (2001–2024) revelou divergências marcantes na detecção de áreas queimadas (com apenas 23% de concordância total entre MODIS MCD64A1, GABAM e MapBiomas Fogo Coleção 4), sendo as discrepâncias amplificadas em paisagens antrópicas e demonstrando que o MapBiomas Fogo oferece a melhor sensibilidade espacial (30 m) para análises históricas de longo prazo. A análise da dinâmica do fogo ao longo de quatro décadas (1985–2022) nas 20 ecorregiões do bioma indicou que 40% da extensão do Cerrado queimou ao menos uma vez, com concentração persistente da área queimada no norte do bioma (MATOPIBA) e na ecorregião do Bananal, além de um deslocamento da sazonalidade para o final da estação seca (setembro–outubro) e um aumento de 18% no tamanho médio das cicatrizes de fogo. A investigação dos impactos das transições LULC (1985–2025) demonstrou que a conversão de vegetação nativa é precedida por um aumento expressivo e sistemático na ocorrência de fogo durante a janela pré-transição de cinco anos (+574% antes da conversão para pastagem e +1.699% antes da conversão para agricultura). Após a conversão, observou-se uma divergência nos padrões de uso do fogo: ocorreu uma redução acentuada do fogo em áreas agrícolas acompanhada pela antecipação da sazonalidade, enquanto as pastagens mantiveram a frequência de fogo de forma mais recorrente e o prolongamento da estação de queimada até novembro. A integração dos três estudos demonstra que as transformações do regime de fogo no Cerrado resultam da substituição da dinâmica natural do fogo por um regime regulado pelo manejo produtivo e pela supressão da vegetação nativa. Diante desse cenário, incorporar o estágio de consolidação das fronteiras agrícolas e o incremento do fogo como indicadores de governança territorial é fundamental para compreender as transformações nos regimes de fogo e subsidiar políticas públicas, priorizando o combate ao desmatamento e a efetividade do Manejo Integrado do Fogo (MIF) para assegurar a resiliência socioecológica do Cerrado.