Verbos modais universais no discurso científico: um estudo sobre argumentatividade e subjetividade em dissertações de Mestrado
Verbos modais universais; Discurso científico; Argumentatividade; Subjetividade; Discurso envolvido; Discurso envolvente.
Esta dissertação aborda o papel da modalidade no discurso científico. Assumindo que o discurso científico se vale de diferentes estratégias textuais para expressão de subjetividade, sendo a modalidade uma dessas estratégias, estudam-se o uso e o comportamento dos verbos modais universais dever e ter de nas seções de Metodologia e Resultados e Discussão de seis dissertações de Mestrado das seguintes áreas: Linguística, Antropologia, Ciência da Informação, Agronomia, Engenharia Elétrica e Ciências da Reabilitação. Como se trata de uma investigação de um tópico gramatical em um gênero discursivo específico, o quadro teórico que embasa a pesquisa é híbrido. Para o estudo do gênero dissertação de Mestrado, combinamos a abordagem sociorretórica dos gêneros (Swales 1990; Biasi-Rodrigues 1999, 2005; Motta-Roth e Hendges 2010) com a abordagem discursiva dos gêneros (Coracini 1991). E, para o estudo dos verbos modais, combinamos a análise formal (Kratzer 1991, 2012; Pires de Oliveira e Scarduelli 2008) com a análise funcional (Olbertz 2008). Ainda usamos uma perspectiva textual (Coracini 1991; Nascimento 2009, 2010, 2018; Koch 2011) para analisar como os modais constroem sentidos nos textos. Assim, no primeiro momento da pesquisa, fizemos uma análise dos dados para saber como as dissertações se organizavam quanto ao uso dos verbos modais. Constatamos que, em todas elas, os verbos modais universais eram usados: o verbo “dever” é muito mais produtivo, aparecendo em todas as dissertações, enquanto ter de aparece em apenas três usos de uma dissertação (da área de Linguística). No tocante às seções do texto onde esses verbos aparecem, constatamos que, em quatro dissertações, os verbos modais só ocorrem na seção de Resultados e Discussão; em uma dissertação, há modais nas duas seções de texto; e, em outra, verifica-se a presença de modais somente na seção de Metodologia. Do cruzamento entre o uso dos modais universais e a área do conhecimento, constatamos que as dissertações das áreas de Linguística e Antropologia, que adotam abordagem metodológica qualitativa, foram as que mais apresentaram verbos modais universais (42 usos de um total de 61 usos). No segundo momento da pesquisa, analisamos a semântica dos modais dever e ter de e apontamos os efeitos de sentido que eles criavam nos textos: enquanto “dever” é utilizado predominantemente nos domínios deôntico e volitivo, criando efeitos de sentido como recomendação, realce, posicionamento e atribuição de responsabilidade; ter de é utilizado predominantemente no domínio inerente extrínseco, criando o efeito de sentido de autojustificativa. Desse modo, enquanto dever contribui principalmente para a expressão de subjetividade em um discurso que já é predominantemente envolvente na seção de Resultados e Discussão; “ter de” contribui para que o discurso da Metodologia, predominantemente envolvido, caminhe para um discurso envolvente, a partir de uma maior expressão de subjetividade.