Predicação secundária: aspecto, controle e outras questões de interface
Construções depictivas. Predicação secundária. Predicados stage-level e individual-level.
A presente tese tem como objeto de estudo as construções de predicação secundária
depictiva (Halliday 1967; Rothstein 1983; Foltran 1999; entre outros), com foco no
português brasileiro (PB), a exemplo de sentenças como “A Maria dirigiu o carro
bêbada” (com depictivo orientado ao sujeito) e “O Pedro comeu a carne crua” (com
depictivo orientado ao objeto direto). Nosso objetivo é responder aos seguintes
questionamentos: (i) Existem predicados depictivos do tipo individual-level no PB?
(ii) Que restrições semânticas atuam sobre o predicado matriz e o depictivo no PB?
(iii) Como solucionar as dificuldades intrateóricas e empíricas impostas pela análise
de construções depictivas de objeto direto como estruturas de controle, tal como
proposto em Ferreira (2017)? (iv) Existem outras possibilidades de orientação do
depictivo no PB, além das canônicas (sujeito e objeto direto)? O primeiro
questionamento é relevante porque a literatura sobre o assunto assume que, em geral,
o depictivo expressa um predicado stage-level, no sentido de Carlson (1977), não
podendo expressar uma propriedade individual-level (Foltran 1999; entre outros). No
entanto, mostraremos, partir de McNally (1993), que o PB apresenta depictivos
individual-level, semelhantemente ao que a autora observa para o inglês. Diante da
possibilidade de depictivos stage-level e individual-level, vamos propor que pode
haver dois tipos de Asp no âmbito da small clause adjunta que abriga o depictivo e
seu sujeito estrutural: Asp_ser, que seleciona apenas predicações individual-level; e
Asp_estar, que pode selecionar tanto predicados stage-level quanto predicados
individual-level. Quanto aos demais questionamentos, investigaremos possíveis
assimetrias semânticas e sintáticas entre construções depictivas de sujeito e de objeto
direto; ademais, investigaremos o comportamento do PB, em uma perspectiva
translinguística, quanto às possibilidades de orientação do predicado depictivo.