A construção da textualidade nas interlínguas de surdos aprendizes de português escrito
produção textual; surdos; interlínguas; textualidade; coesão.
Esta tese trata do processo de aprendizagem do português escrito por surdos falantes de Libras, no contexto escolar inclusivo. O objetivo deste estudo é a análise dos elementos que caracterizam a construção da textualidade das produções escritas por esses aprendizes. Por meio da abordagem qualitativa foram analisados os dados de um corpus composto de textos escritos por quatro participantes surdos profundos, sinalizadores de Libras, estudantes do Ensino Médio do Distrito Federal, enfocando os elementos que caracterizam a coerência e a coesão, próprios da situação interlinguística, em que duas línguas estão envolvidas: a língua portuguesa e a Libras. As interlínguas apresentadas retratam a evolução das gramáticas transitórias dos aprendizes que, durante o processo, criam regras interlinguísticas. Com base em levantamentos bibliográficos sobre a estrutura da Libras e da língua portuguesa, apresentam-se os resultados da análise dos dados coletados, sob duas perspectivas: (1) a identificação e a classificação das características coesivas presentes nos textos produzidos pelos aprendizes e (2) a descrição do percurso interlinguístico de cada participante na aquisição dos elementos de coesão da língua portuguesa. Foram identificados até cinco níveis de estruturação do texto interlinguístico: o texto, o supertópico, a sequência textual, a construção coordenada ou subordinada e a oração. Na organização referencial e correferencial das interlínguas, foram depreendidas duas regras sintáticas interlinguísticas relativas à explicitação nominal da correfererenciação do sujeito das orações. Na caracterização do processo de aprendizagem, foram investigados quatro tipos de situações, a saber, (1) a transferência da primeira língua, a Libras. (2) a sobreposição dos recursos linguísticos de ambas as línguas, (3) as formas novas e (4) o conhecimento adquirido da segunda língua, o português. A metodologia adotada foi um estudo longitudinal com registros de dados realizados em 11 encontros que aconteceram em intervalos de 20 dias. Tomando o texto como base da análise, a pesquisa ancora-se no pressuposto da existência de interlínguas, de acordo com Selinker (1972) e Gass e Selinker (2008), e no fundamento funcionalista de que a língua tem a função precípua de promover a interação, segundo Dik (1997). Adotam-se, para o exame da língua portuguesa, os conceitos e as análises de Neves (1997); (2011) e (2019); Castilho (2016) e Koch (2009) e, para a Libras, as de Brito (1995), Quadros e Karnopp (2004), Sabanai (2016), Araújo (2016) e Soares (2020).