O causado (causee) nas construções causativas de verbos transitivos em línguas indígenas brasileiras
Causado. Causativas. Verbos transitivos. Línguas indígenas brasileiras. Tipologia
Construções causativas são geralmente descritas pela relação entre dois eventos conceitualmente dependentes, sendo um deles um predicado de causa e o outro um predicado de efeito (Kemmer; Verhagen, 1994). A inserção de um argumento adicional, o causador, na posição de sujeito, altera as relações gramaticais da construção original e implica a demoção do antigo sujeito para uma nova função sintática, a qual varia de acordo com a língua. Apesar dessa variação, existe uma associação regular entre as relações gramaticais e os papéis semânticos e pragmáticos expressos. As marcas morfológicas acusativa, dativa e instrumental, por exemplo, podem associar-se à semântica de ação direta ou indireta, intencional ou acidental do causador, e à semântica dos graus de controle, volição ou afetação do causado (cf. Comrie, 1989). Essa combinação é tipologicamente mais estável e previsível em causativas formadas a partir de verbos intransitivos, mas pode variar naquelas oriundas de transitivos (Dixon, 2000). O objetivo desta pesquisa é identificar o que as línguas indígenas brasileiras permitem afirmar sobre o causado em face da ampla literatura teórica. Iniciaremos a pesquisa por línguas da família tupí-guaraní, expandiremos para o tronco tupí e continuaremos com línguas de outras famílias. Assim, buscamos responder às seguintes perguntas: Tipologicamente, o que já foi identificado sobre o causado? Existem estudos sobre causativas de verbos transitivos simples ou de ditransitivos? Qual morfologia recebe e qual função sintática exerce o causado (antigo sujeito) de verbos transitivos causativizados? E o que ocorre com o paciente? Em síntese, o desafio é saber se o causado continua sendo um argumento ou não e de que tipo, uma vez que precisa se adequar à valência do novo predicado. Considerando que causativas envolvem não apenas morfologia e sintaxe, mas também semântica, pragmática e discurso, adotamos perspectiva funcional-tipológica para tratar da questão, na linha de Givón (1983, 1984), Kozinsky e Polinsky (1993) e Kemmer e Verhagen (1994). Pragmaticamente, por exemplo, já se identificou que o causado, por ser o antigo S ou A da oração original, tende a ser a informação dada ou conhecida do enunciado, não o foco. Logo, nos perguntamos em que medida isso estaria presente nas línguas indígenas brasileiras. Como tópico na oração inicial, o causado tende a não ser citado, podendo ser suprimido sem prejuízo à informação, pois faz parte das informações compartilhadas entre os falantes. Gera-se, então, uma falsa impressão de que seria um adjunto, embora o que realmente alguns testes sintáticos acabam por mostrar são elementos pragmáticos, não sintáticos.