(Mais) Uma história das orações relativas do Português do Brasil em perspectiva paramétrica
mudança paramétrica; diacronia; orações relativas; contato; sintaxe gerativa.
Muitas pesquisas têm se debruçado sobre a estrutura das orações relativas do Português do Brasil. Em geral, há o reconhecimento de uma mudança linguística em direção à perda do pied-piping da preposição com o pronome relativo nessas estruturas. Não há consenso, no entanto, acerca dos passos envolvidos e do estatuto categorial do relativizador na estrutura resultante dessa mudança. Este trabalho revisita a discussão buscando identificar a trajetória gramatical que possa explicar o curso diacrônico das orações relativas do português brasileiro (PB), tendo em vista a tipologia da relativização proposta no estudo seminal de Vries (2002). Para isso, fazemos uma análise quantitativa de dados linguísticos a partir do que consideramos a formação do português brasileiro até a atualidade: séculos XIX, XX e XXI, levando em conta variáveis estruturais como tipo de pronome, função relativizada, preposição envolvida e tipo semântico da oração relativa. Os corpora que compõem a base de dados representam dois gêneros textuais que refletem os usos de falantes do português brasileiro culto: cartas pessoais escritas por pessoas escolarizadas dos séculos XIX e XX e discursos parlamentares espontâneos do século XXI. A investigação é feita dentro do quadro da teoria gerativa, em sua versão Minimalista (cf. Chomsky 1995, 2001), com a utilização dos conceitos da sintaxe diacrônica (cf. Roberts, 2007, 2019). Constatou-se, em consonância com os estudos prévios, um aumento significativo no uso de relativas com que sem preposição (referidas como cortadoras), e consequente desaparecimento da relativa com a preposição (pied-piping), a partir da segunda metade do século XX, incluindo a sincronia, notadamente na relativização da posição de adjunto, com implicações para o aumento no uso da forma que, e declínio das formas cujo, o qual e quem. Além disso, verificou-se o aumento das chamadas relativas estruturais, que relativizam a posição de sujeito e objeto, o que relacionamos à perda do OI em monotransitivas, entre outras mudanças na transitivização de predicados no PB. Partindo da observação de que já havia relativas cortadoras no Português Clássico, que desembarcou no Brasil em 1500, especialmente relativas de NP adverbial (Andrade, 2025), nossa hipótese é que, numa primeira etapa, mudanças no PB, possivelmente derivadas por uma questão de contato, como a ativação da posição de tópico e o surgimento do tópico-sujeito, impactaram as orações relativas, provocando um aumento do uso da estratégia cortadora. Numa segunda etapa, a ambiguidade estrutural ocasionada pela presença de sentenças relativas cortadoras geradas a partir da posição de tópico (Kato, 1993; Kato e Nunes 2009)) e de tópico-sujeito (Almeida e Salles, 2023), em adição às estruturas já presentes em posição de adjunto, em que o uso da preposição introdutora do pronome relativo não ocorre, tenha gerado um ambiente linguístico favorável à reanálise da estrutura relativa no português brasileiro. Dessa forma, por hipótese, os falantes nativos reinterpretaram a relativização de constituintes gerados em posições sintáticas que dispensam a atribuição de caso oblíquo por preposição como uma relativização sem movimento do pronome relativo, mas com um complementador em C, também encontrada na tipologia das línguas, assim definido por sua realização articulada com um D nulo (Drel) marcado pelo traço relativo na estrutura interna da oração relativa (Vries, 2002). O resultado dessa reanálise é a coexistência de relativas cortadoras com o complementador que (em C, com D+rel nulo na relativa) e relativas com alçamento do núcleo D realizado por pronomes relativos (que, o qual, quem), marcados pelo traço wh, e o pied-piping da preposição (ou por correlatos morfossintáticos, como onde, cujo), estas últimas ativadas nos contextos específicos das relativas apositivas e das restritivas na gramática do letrado.Diferentemente de Kato e Nunes (2009) e Lessade-Oliveira (2009), consideramos que nem todas as relativas cortadoras do PB são geradas por um pronome relativo alçado a partir de posições de tópico, mas que esta estrutura, além de outras com atribuição de caso semelhante, consiste em um dos passos da mudança, os quais não foram descritos desta forma pelos estudos que já consideram o que da oração relativa cortadora do português brasileiro como complementador, tais como Tarallo (1983) e Kenedy (2023 [2003]).