“Reconhecendo a Diversidade Sexual na Escola”: Um estudo crítico-discursivo sobre a formação continuada como potencial de emancipação e mudança social na e a partir da escola pública do Distrito Federal
Diversidade sexual; gênero social; formação continuada; escola; mudança social
Esta tese tem como objeto de pesquisa uma ação de transformação social, e não um problema social como na tradição dos Estudos Críticos do Discurso (Wodak; Meyer, 2009). Ao investigar o curso “Reconhecendo a Diversidade Sexual na Escola”, ofertado às/aes/aos profissionais da educação da SEEDF pela EAPE, em 3 semestres (2022-2023), a pesquisa que resulta neste texto final buscou, como objetivo geral, analisar como essa ação de formação continuada provocou as/es/os profissionais da educação participantes a refletirem criticamente sobre suas unidades escolares e mudarem, em alguma medida, suas próprias práticas político-pedagógicas. Como desdobramentos, há os seguintes objetivos específicos: examinar como as/es/os cursistas representam os espaços escolares em que atuam quanto à presença do discurso LGBTIfóbico e seus impactos; investigar como a produção de ações pedagógicas interventivas, e também a atuação das/es/os cursistas que as elaboraram, podem promover insumos teórico-pedagógicos para uma educação antiLGBTIfóbica; avaliar possíveis mudanças no processo de identificação das/es/os cursistas depois da formação e como, caso existam, elas afetam suas práticas político-pedagógicas. Orientada metodologicamente pelos ECD, esta tese adota uma abordagem crítica realista da realidade (Bhaskar, 1998), com uma perspectiva etnográfica, discursiva e intersecional (Crenshaw, 1989; 2004). Ela se faz qualitativa e interpretativista, operando com o método dialético-relacional e transformacional (Fairclough, 1992; 2003; Chouliaraki; Fairclough, 1999) para investigar a potencialidade da formação continuada centrada em diversidade sexual e gênero social na reconstituição das práticas escolares. Para tanto, 27 ex-cursistas do RDSE participaram da pesquisa com seus relatos e produções escritas. Dessa maneira, as entrevistas semiestruturadas, os grupos focais e a análise documental são instrumentos de coleta e geração de dados. Teoricamente, para fazer o acercamento analítico dessa ação de transformação social e produzir conhecimento, opto pelos ECD (Chouliaraki; Fairclough, 1999; Dias; 2011; Resende; 2017; Gomes; 2020; Carvalho; 2024), pelos Estudos de Gênero (Butler, 2017; 2018; 2022; 2024; Louro, 2011; 2014; 2015; 2016) e pela Pedagogia Crítica (Freire, 1978; 1996; Walsh, 2013; 2017; hooks, 2017; 2021) pela complexidade do objeto de pesquisa em estudo. Em termos de análises, os excertos gerados/coletados foram escolhidos frente aos movimentos retóricos de leitura à luz das perguntas de pesquisa, as quais se relacionam a cada um dos aspectos dos significados dos textos (acional/relacional, identificacional e representacional). Após a seleção, foram analisados a partir de um processo de descrição, interpretação e explanatória crítica, em que as categorias analíticas Intertextualidade, Relações Semânticas, Representação dos Atores Sociais, Sistema de Transitividade, Avaliação e Modalidade foram fundamentais para identificar as marcas textuais deixadas pelas/es/os participantes e relacioná-las ao potencial de mudança e emancipação social aventado pela formação continuada. Como resultados, é possível perceber que as/es/os participantes acreditam que os textos utilizados durante a formação, a metodologia própria do curso, a mediação do formador e a troca de experiências e saberes outros com seus pares foram elementos importantes para as mudanças que percebem em si, em suas práticas e na maneira como representam seus espaços escolares. Esses elementos, portanto, foram provocadores de reflexão crítica, e por conseguinte, também responsáveis pela reconstituição das práticas político-pedagógicas dessas pessoas em algum medida. É possível perceber que, após a participação na ação de formação continuada, tais profissionais representam suas escolas de forma diferente. Nesse sentido, a escola é representada como lugar contraditório, onde há uma manutenção hegemônica em torno de projetos de dominação investidos ideologicamente pelo cisheteropatriarcado, de modo que as equipes gestoras são apontadas como alheias/ausentes (Filice, 2010) ao atuarem apenas pontualmente frente à discussão sobre gênero e sexualidade, apresentando-se de maneira conservadora ou mesmo devido à interferência de integrantes de uma gestão militar em questões pedagógicas. Entretanto, há participantes que representam a escola como lugar de resistência a partir da possibilidade de provocação crítica reflexiva sobre as atitudes dos seus pares frente a questões de representatividade no imaginário infantil, na construção de estratégias de enfrentamento ao machismo e LGBTIfobia já nos Anos Iniciais, mas também no reconhecimento da atuação crítica de uma equipe gestora proativa em relação ao cuidado e proteção das infâncias. Por fim, quando tais profissionais refletem sobre si, antes e depois do RDSE, é possível observar mudanças em como essas pessoas se percebem como agentes sociais com uma escuta mais ativa, sensível, que se sentem com mais respaldo e menos medo de debaterem os temas discutidos na formação. Há também pessoas que apresentaram mudanças na sua autopercepção (mais empoderada como mulher, entendendo-se como pessoa negra ou mesmo reconhecendo como possiblidade positiva de identificação), o que também impacta suas práticas e o modo como percebem suas/seus estudantes.