“Aqui é Kalunga!”: Aspectos sócio-históricos e sintáticos da gramática Kalunga e a emergência de sujeitos locativos definidos.
Quilombo Kalunga; Vão de Almas; Programa Minimalista; Cisão pronominal; Sócio-história do Português do Brasil; Sujeito locativo pronominal.
Esta tese concentra-se no estudo de construções inovadoras do português brasileiro em que pronomes locativos definidos são licenciados na posição pré-verbal, tal como Aqui é Kalunga! Os dados em apreciação foram recolhidos prioritariamente na comunidade quilombola rural Kalunga do Vão de Almas, localizada em Goiás. O objetivo da pesquisa foi analisar aspectos da sintaxe da comunidade Kalunga, comparando-os com outros falares de comunidades rurais afro-descendentes, para compreender com mais nitidez a tipologia dessa variedade linguística do Português do Brasil, além de descrever e explicar o comportamento sintático e semântico desse tipo específico de construção com locativo em posição pré-verbal, que apresenta sujeitos locativos (aqui e aí) com interpretação definida, recuperada contextualmente, por se tratar de um tipo de construção ainda não atestada nem analisada na literatura sobre a sintaxe do sujeito no PB. A análise proposta baseia-se no quadro teórico da Gramática Gerativa, em seu Programa Minimalista (Chomsky, 1995, 2000), e com as hipóteses elencadas por Pilati, Naves e Salles (2017a) relativas à cisão do paradigma flexional e à emergência de pronomes locativos na posição de sujeito pré-verbal no PB, devido ao processo de mudança linguística relativa à perda de sujeitos nulos (cf. Duarte, 1995). Em virtude das características sócio-históricas e culturais que permeiam a aludida coletividade, outros objetivos também são contemplados nesta investigação, a saber: discutir aspectos da sócio-história Kalunga e seus contatos linguísticos e realizar um panorama de fenômenos linguísticos presentes na fala Kalunga, cotejando-os com outras variedades do PB. Corroborando com a proposta de Mattos (2019), o que se pôde demonstrar a partir dessas análises é que a fala Kalunga não apresentou vestígios desse isolamento geográfico e linguístico, indo de encontro à tese de que os Kalunga permaneceram completamente isolados por quase 300 anos até serem “descobertos” pela antropóloga Mari Baiocchi, na década de 1980.