UM ESTUDO CRÍTICO SOBRE OS MODOS DE AÇÃO POLÍTICA E EDUCACIONAL PARA O COMPONENTE LÍNGUA PORTUGUESA: GÊNEROS DISCURSIVOS E PODER NO NOVO ENSINO MÉDIO
Novo Ensino Médio; gêneros discursivos; Língua Portuguesa; Base Nacional Comum Curricular/2018.
Considerando o processo de reforma da etapa do Ensino Médio da educação básica instituído pela Lei n. 13.415/2017 e pela Base Nacional Comum Curricular/2018, o objetivo desta tese é investigar políticas curriculares que orientam o trabalho didáticopedagógico com gêneros discursivos no contexto da Reforma do Ensino Médio e seus impactos nas práticas escolares e estudantis em um colégio de aplicação. Partimos do entendimento de que o discurso, enquanto momento semiótico das práticas sociais (ação/interação, representação, identificação), pode contribuir para a problematização de questões relacionadas a poder e justiça social. Assim, as práticas dos agentes escolares, materializadas em gêneros discursivos e seus modos de agir interagir, conhecer e ser no curso dos eventos de multiletramento, podem contribuir para manter, mas também para problematizar e superar, relações de opressão sustentadas por uma racionalidade capitalista, mercadológica, patriarcal e racial hegemonizante que caracteriza o sistema da colonialidade-modernidade (Vieira, 2019, 2022, 2023, 2024). Visando analisar os discursos das políticas públicas oficiais e as experiências situadas das professoras de um colégio de aplicação com a leitura e produção de gêneros multimodais, a partir de entrevistas e da proposição colaborativa de práticas de multiletramentos no componente de Língua Portuguesa, este estudo tem como base a abordagem teórico-metodológica dos Estudos Críticos do Discurso (Fairclough, 2003; Chouliaraki, Fairclough, 1999; Vieira, 2019; 2022, 2023, 2024; Resende, 2019) articulados à abordagem dos multiletramentos (Rojo, 2009, 2012, 2014; Kalantzis, Cope, Pinheiro, 2020), aos pressupostos da Semiótica Social (Kress, Leeuwen, 2006; Leeuwen, 2022) e às abordagens da Pedagogia crítica (Freire, 2018; Walsh, 2013). Para isso, desenvolvemos uma pesquisa documental e etnográfico-discursiva-colaborativa (Denzin, Lincoln, 2006; Magalhães, Martins Rezende, 2017) com metodologia de geração de dados que envolveu notas de participação colaborativa, coleta de textos que circulam na ordem discursiva político-educacional e escolar e dos textos autorais produzidos pelos/as estudantes nas práticas de multiletramentos. A análise discursiva-semiótica consistiu, portanto, de análise social e de análise textual da Lei n. 13.415/2017, da BNCC, das entrevistas com as professoras e dos autorretratos dos estudantes com base na crítica explanatória (Fairclough, 2003; Chouliaraki, Fairclough, 1999) e nos pressupostos da semiótica social (Kress, Leeuwen, 2006; Leeuwen, 2022). A análise dos textos de governança mostrou uma interdiscursividade entre a prática discursiva educacional e a prática econômica neoliberal na construção de uma educação gerencialista, voltada para a formação técnica e instrumental para o mercado de trabalho, sustentada pedagogicamente nos conceitos de competências e habilidades. As entrevistas docentes apresentaram um discurso de contestação dos sentidos do discurso de governança relacionados à reforma e uma vinculação das professoras a uma perspectiva de linguagem como processo sociointeracional e discursivo com ênfase nos gêneros discursivos e na multimodalidade. As práticas de multiletramento estiveram centradas na produção dos gêneros biografia, autobiografia e autorretrato e em suas potencialidades como formas de interagir, conhecer e ser. A interação/ação por meio de autorretratos, que foram objeto da análise explanatória, oportunizou aos estudantes espaço para expressão e autorreflexão sobre sentimentos, angústias, anseios e sobre como se veem e se situam no contexto da conjuntura educacional e da prática situada, em especial a instituição escolar, em um processo de autoidentificação com a identidade institucional na organização do design multimodal dos autorretratos.