O BRASIL COMO POTÊNCIA AGRÍCOLA VERDE: ANÁLISE DE NARRATIVA SOBRE O AGRO NA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA DE 2019 A 2022
POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA; AGRONEGÓCIO; ANÁLISE DE NARRATIVAS; GOVERNANÇA AGROAMBIENTAL.
Esta dissertação está centrada na narrativa brasileira sobre o agronegócio na política externa e na tentativa do país de firmar-se como uma potência verde, no período de 2019 a 2022, em um contexto em que a batalha discursiva entre as principais potências do setor agrícola se acirra na construção de normas internacionais, com o avanço do consenso em torno da transição para economias de baixo carbono. Busca-se entender como se estrutura a narrativa brasileira sobre a agricultura nacional, no âmbito externo, com vistas a, ao mesmo tempo, moldar normas em formação e conter um fechamento de mercados. Para tanto, adota-se o estudo de caso explicativo, que combina a role theory à análise de narrativas, aplicadas a discursos e a expedientes ostensivos do Ministério das Relações Exteriores, aos atos normativos e às manifestações das potências que lideram a regulação do comércio agrícola e a entrevistas com tomadores de decisão envolvidos na formulação da política externa para o setor. Conclui-se que a narrativa foi construída de modo reativo e defensivo, como resposta à pressão normativa externa, e não a partir de uma reformulação de valores ou objetivos: O exame dos expedientes indica que o dispositivo de defesa da imagem foi instituído em 2019, em resposta a uma crise reputacional aguda e não à regulação ambiental estrangeira, que só viria a ser proposta mais tarde. Trata-se de mudança de papel por adaptação, evidenciada pela atualização de storylines (linhas narrativas) preexistentes, entre as quais a do país como provedor da segurança alimentar mundial, a da robustez da legislação ambiental nacional, a do protecionismo disfarçado de preocupação ambiental e a da soberania sobre os recursos naturais. A avaliação da recepção dessa narrativa pelas potências reguladoras, contudo, não pode ser dissociada da controvérsia internacional que cercava o governo brasileiro no período, o que recomenda cautela na atribuição de eficácia, ou de ineficácia, ao esforço narrativo considerado isoladamente.