"Potencial de micorremediação de mono e cocultivos de fungos filamentosos em petróleo e óleo diesel."
micorremediação; hidrocarbonetos; cocultivo fúngico; secretoma; manganês peroxidase; proteômica.
A contaminação por petróleo bruto e óleo diesel permanece como um problema ambiental relevante, o que reforça a necessidade de estratégias biológicas capazes de atuar sobre compostos hidrofóbicos e quimicamente recalcitrantes. Nesse contexto, fungos filamentosos se destacam pela plasticidade metabólica, pela tolerância a condições de estresse e pela capacidade de secretar enzimas extracelulares com potencial aplicação em processos de micorremediação. Neste trabalho, avaliou-se o desempenho de Aspergillus tamarii, Penicillium cerradense e Trichoderma reesei RUT C30, obtidos da micoteca do Laboratório de Enzimologia, em mono- e cocultivos expostos a petróleo bruto e a óleo diesel S10. O estudo integrou análises morfológicas em cultivos sólidos e líquidos, avaliação macroscópica do comportamento dos consórcios, quantificação de proteínas totais do secretoma, perfil eletroforético por SDS-PAGE e ensaios de atividade de manganês peroxidase (MnP). Os resultados mostraram que as espécies avaliadas foram capazes de crescer na presença dos hidrocarbonetos testados, com respostas mais expressivas em cocultivo do que em monocultivo. O consórcio entre A. tamarii e P. cerradense apresentou as alterações macroscópicas mais evidentes, com remoção visual da fase dispersa de óleo diesel após 15 dias e mudanças físico-químicas no petróleo compatíveis com emulsificação, adsorção à biomassa e aumento da interação entre o contaminante e o micélio. Os demais cocultivos também exibiram aglomeração micelial, clarificação parcial do meio e mudanças cromáticas, sugerindo respostas adaptativas distintas conforme o hidrocarboneto e a combinação fúngica. As análises do secretoma indicaram maior concentração proteica e perfis eletroforéticos mais complexos nos cocultivos, especialmente nas condições com óleo diesel, em comparação aos monocultivos, o que é consistente com ampliação do repertório proteico extracelular sob estresse químico. Além disso, foi detectada atividade de MnP nos consórcios avaliados, com melhor desempenho na faixa ácida de pH e aumento da atividade na presença de Fe²⁺ em ensaios otimizados. Em conjunto, os dados indicam que os cocultivos fúngicos avaliados apresentam potencial promissor para uso em estudos de micorremediação de hidrocarbonetos, sobretudo pela combinação de crescimento em meios contendo petróleo e diesel, alterações macroscópicas compatíveis com a transformação do sistema óleo-água, secreção proteica extracelular detectável e atividade de enzimas oxidativas. Os achados também justificam o aprofundamento por meio de proteômica baseada em espectrometria de massas e de análises químicas complementares, a fim de elucidar, com maior resolução, os mecanismos envolvidos na resposta fúngica a esses contaminantes.