"Avaliação do potencial de biorremediação de petróleo e óleo diesel por fungos do Cerrado em monoculturas e cocultivos"
micorremediação; biodegradação; hidrocarbonetos; proteômica; enzimas.
A contaminação ambiental por petróleo e derivados gera impactos significativos na biodiversidade, nos ecossistemas e na saúde humana. Nesse contexto, a biorremediação por microrganismos tem se destacado como alternativa de interesse, e os fungos filamentosos representam um grupo particularmente promissor devido ao crescimento em hifas, à ampla plasticidade metabólica e ao repertório enzimático associado à transformação de compostos recalcitrantes. Além disso, como a degradação de matéria orgânica na natureza frequentemente ocorre por meio de comunidades microbianas metabolicamente complementares, a avaliação de consórcios fúngicos pode ampliar a compreensão do uso desses organismos na remediação de hidrocarbonetos. Este trabalho teve como objetivo avaliar o potencial de fungos filamentosos da micoteca do Laboratório de Enzimologia do Instituto de Biologia da Universidade de Brasília, previamente isolados de solo de Cerrado, quanto à capacidade de crescimento e à utilização de petróleo bruto e óleo diesel S10, em monoculturas e cocultivos, bem como avaliar, de forma inicial, aspectos enzimáticos e proteômicos associados a esse processo. As espécies Paecilomyces formosus, Clonostachys byssicola e Aspergillus brasiliensis foram cultivadas em petróleo bruto e óleo diesel S10 como únicas fontes de carbono e, em etapa complementar, em meio suplementado com glicose, em monoculturas e em consórcios duplos e triplos. Ao final dos cultivos, o secretoma foi coletado para avaliação do perfil proteico por SDS-PAGE e para ensaios de manganês-peroxidase (MnP), lacase (Lac) e lignina-peroxidase (LiP). Nos ensaios com petróleo e óleo diesel como as únicas fontes de carbono, o consórcio P. formosus + A. brasiliensis (F1+F3) e o consórcio triplo apresentaram os resultados mais promissores entre as condições testadas. Em sete dias de crescimento, o consórcio F1+F3 promoveu alterações visíveis na aparência do petróleo, com formação de agregados de aspecto lamacento, e do óleo diesel, com formação de partículas emulsificadas. Esses achados sugerem interação ativa dos fungos com hidrocarbonetos, embora a quantificação da degradação ainda dependa de análises complementares em andamento. Os ensaios enzimáticos não indicaram atividades expressivas de MnP, Lac e LiP em meio mínimo nas condições avaliadas. Por outro lado, em meio nutritivo, P. formosus e A. brasiliensis apresentaram resultados iniciais compatíveis com potencial de produção dessas enzimas. De modo convergente, os perfis proteicos observados por SDS-PAGE diferiram entre os cultivos com hidrocarbonetos e os respectivos controles, com maior diversidade de bandas nas condições com petróleo e óleo diesel. Em meio nutritivo, a recuperação de proteínas foi superior e os perfis permaneceram distintos entre as condições, o que é consistente com a manutenção de uma resposta metabólica diferencial na presença de hidrocarbonetos. Em conjunto, os resultados obtidos até o momento indicam potencial de uso dos isolados avaliados, especialmente em consórcio, em estratégias de biorremediação de petróleo e óleo diesel, e apontam para alterações metabólicas passíveis de investigação mais aprofundada. Entre as etapas em andamento e futuras do trabalho, incluem-se o monitoramento da degradação dos hidrocarbonetos, o refinamento dos ensaios enzimáticos, a extração e análise de proteínas intracelulares e a caracterização proteômica por espectrometria de massas dos secretomas e das frações intracelulares, com o objetivo de elucidar com maior precisão os mecanismos envolvidos.