Bem Viver Baniwa (Matsiakaro Weemaka): cosmologia, medicinas originárias e governança do corpo-território no Alto Rio Negro
Bem Viver Baniwa; Ciências Indígenas; Medicinas Indígenas; Epistemologias Originárias; Governança Territorial; Saúde Intercultural.
A pesquisa analisa os processos de construção, interrupção e reconstrução do Bem Viver Baniwa (matsiakaro weemaka) no Alto Rio Negro, compreendendo-o como um sistema cosmológico, epistemológico e político originário, articulado de forma indissociável entre corpo, território, espiritualidade e governança comunitária. Fundamentada em uma abordagem autoetnográfica, memorial e intercientífica, ancorada na trajetória do pesquisador como intelectual Baniwa, a investigação demonstra que o Bem Viver não constitui uma filosofia abstrata, mas uma tecnologia civilizatória viva, responsável por organizar práticas de saúde, manejo ambiental, educação, economia, ética e sustentabilidade socioterritorial. Tomando a medicina Baniwa como eixo empírico central, o estudo evidencia a complexidade de um sistema integrado de saberes e práticas, composto por tecnologias ancestrais de cuidado, especialistas altamente formados, protocolos terapêuticos próprios e uma racionalidade interepistemológica que articula dimensões cosmológicas, territoriais e espirituais. A partir de entrevistas em profundidade com lideranças intelectuais Baniwa e profissionais do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), analisa-se o diálogointercientífico contemporâneo em torno do reconhecimento das Medicinas Indígenas como sistemas científicos autônomos, territorializados e fundamentais à promoção da saúde integral. Os resultados evidenciam a urgência de seu reconhecimento jurídico, institucional e financeiro, com vistas à sua incorporação ao Sistema Único de Saúde, como condição para o fortalecimento da saúde intercultural, da autodeterminação dos povos indígenas e da governança territorial compartilhada. Conclui-se que o Bem Viver Baniwa constitui um horizonte civilizatório contemporâneo capaz de orientar políticas públicas pluriepistêmicas, fortalecer a autonomia indígena e contribuir para o enfrentamento do colapso ecológico e civilizatório que marca o nosso tempo.