O EJÓ NOS TROUXE ATÉ AQUI: a oralidade como princípio sociopolítico nas tradições de terreiro.
Ejó; Tecnologias ancestrais; Conflito como fundamento; Povos de Terreiro
Esta dissertação investiga como os povos de terreiro mobilizam suas tradições diante de tensões contemporâneas, tomando o Ejó como eixo analítico central. Parte-se da compreensão de que, nos terreiros de Candomblé, a tradição não se restringe à transmissão de práticas e saberes, mas se constitui como um processo dinâmico, continuamente atualizado por meio da oralidade, entendida como princípio sociopolítico organizativo. A pesquisa adota a escrita de si, articulada à etnografia comunitária, reconhecendo o pesquisador como sujeito implicado no campo. O Ejó, comumente associado à fofoca ou intriga, é analisado como uma tecnologia complexa de circulação de informações, produção de sentidos e regulação das relações sociais. A partir das contribuições de Júlio Santana Braga, o Ejó é compreendido como um serviço aos terreiros, operando na mediação de conflitos, na revelação de tensões e na reinscrição de normas e valores. Os resultados indicam que o Ejó desempenha papel fundamental na sustentação da vida comunitária, atuando simultaneamente como mecanismo de controle social, dispositivo de denúncia e instrumento de atualização das tradições. Evidencia-se que, embora possa reforçar desigualdades em determinados contextos, o Ejó também possibilita a exposição e o enfrentamento de práticas que violam princípios éticos dos povos de terreiro. Conclui-se que o Ejó, longe de ser uma alegoria ou exclusivamente negativo, constitui uma tecnologia central para a sustentação das tradições de terreiro, sendo fundamental para a produção de pertencimento, justiça e continuidade dos modos de vida desses povos.