MAMULENGO NA RUA E NA ESCOLA EM UMA PERSPECTIVA ANTIRRACISTA
Palavras-chave: Antirracismo; Anarquismo; Mamulengo; Cultura Popular.
Esta dissertação aborda o Mamulengo como uma brincadeira de bonecos popular, tradicional e afro-brasileira. Baseei o estudo nos relatos orais de mestres com os quais convivi e aprendi. Também na literatura de autores negros brasileiros e africanos, na minha própria vivência como homem negro, mamulengueiro e educador, tendo como chave analítica o pensamento e a prática histórica anarquista. Parto da premissa de que o racismo estrutural, enraizado desde a escravidão, permeia as instituições e relações sociais no Brasil, incluindo a escola, que considero um espaço de disciplinamento capitalista em que subjetividades racistas são perpetuadas, por meio do apagamento da história e do silenciamento das pessoas negras. Busco rememorar a origem afro-brasileira do Mamulengo e argumento que essa brincadeira é nascida na senzala, carrega memórias, conhecimentos ancestrais e devires, com potencial para desafiar a narrativa eurocêntrica ainda vigente. Procuro refletir sobre os desafios, as possibilidades e as contradições dos ofícios que eu acumulo, de mamulengueiro e educador, encontrando nas figuras do akpalô e do griô referências inspiradoras. Busco uma zona de intersecção entre os dois ofícios no brincar, na brincadeira. Também as práticas de terreiros de Candomblé e de outras manifestações negras, espirituais ou não, que servem para compor um mosaico afrobrasileiro importante para me ajudar a compreender o Mamulengo, a escola e o mundo. Além disso, estabeleço um diálogo entre o anarquismo, quilombos e o comunalismo africano buscando nessas filosofias e práxis ferramentas para analisar a realidade e desenvolver um Mamulengo antirracista, seja para brincar, ensinar e aprender, em praças ou escolas. Entendo que o Mamulengo não é a priori antirracista, mas carrega em si potencialidade. Defendo a importância de se valorizar a história e a ancestralidade do Mamulengo, para que ele continue a ser um instrumento de resistência, criação e liberdade. Escrever sobre o Mamulengo é, para mim, um ato de compromisso com a luta pelo direito à re-existência negra e de todos os não-brancos. É reconhecer a importância do riso e da brincadeira popular como estratégias de insurgência.