Desembrutecimento corporal atravessado pelo saber sensível
Palavras-chave: dança, desembrutecimento, emancipação, pessoas-periferizadas, saber sensível, educação .
Resumo
Este trabalho de mestrado pesquiso a dança como prática educativa capaz de enfrentar processos de embrutecimento que atravessam corpos periferizados, marcados por violências sociais e territoriais. A pergunta central que motiva o estudo é, de que modo a dança, compreendida como prática sensível e crítica, pode contribuir para o desembrutecimento e para a construção de uma educação mais emancipatória em contextos periferizados? Tenho como Objetivo consolidar a dança como área de conhecimento no campo da educação, evidenciando seu potencial transformador na formação de corpos periferizados, para além do entretenimento ou da mera reprodução de passos. Especificamente refletir a dança como prática educativa que articula sensibilidade e reflexão crítica, pesquisar seu papel no desembrutecimento corporal, relacionar a cultura hip-hop e afro-diaspóricas e a dança com perspectivas educacionais emancipatórias, refletir sobre minha própria experiência como professor -artista periferizado, compreender como a dança amplia a consciência de si, da história e do contexto social dos estudantes; e evidenciar seu potencial na formação de pessoas críticas e transformadoras.Fundamento o trabalho em autores que pensam a educação e a emancipação, como Paulo Freire, bell hooks e Krenak, além de conversas com Foucault, Mbembe e Maldonado. No campo da dança, recorro a Rudolf Laban (fatores de movimento), Lorrasa e Dewey (experiência), Inaicyra Falcão dos Santos (corpo e ancestralidade), Márcia Almeida e Isabel Marques (dança como prática educativa). Também articulo saberes afro-diaspóricos, dos povos originários e expressões culturais urbanas (hip-hop, samba, capoeira). Conduzo a pesquisa pela noção de encruzilhada, que articula saberes acadêmicos, ancestrais, orais e artísticos sem hierarquização. O método é um percurso artístico-pedagógico, em conversa com a pesquisa-ação, assumindo minha trajetória como professor, artista e morador da periferia como elemento central. Participaram entre 20 e 30 estudantes de escolas públicas e projetos sociais da Ceilândia (DF), com ênfase na Escola Parque Anísio Teixeira. Utilizei avaliações processuais, observação participativa com diário de campo e entrevistas semiestruturadas, garantindo os princípios éticos. Os resultados apontam que a dança, quando orientada por uma intencionalidade sensível e crítica, promove sensibilização, consciência corporal e reflexão crítica. Os estudantes reagiram com maior engajamento, mobilizando dimensões relacionais, afetivas, artísticas e cognitivas. Evidenciou-se o desembrutecimento, enfraquecimento da brutalidade internalizada , abrindo possibilidades para novas formas de perceber a si, o outro e o mundo. A dança se afirma como prática de transgressão à colonialidade do ser, contribuindo para que corpos periferizados rompam com padrões opressores. Concluo que esta pesquisa é coletiva, viva e urgente, configurando-se como gesto de resistência. No âmbito educacional, revela a necessidade de reconhecer a dança como área de conhecimento nas escolas, especialmente em periferias. Do ponto de vista prático, estudantes envolvidos passaram a acessar cursos superiores de dança e a posicionar-se criticamente. Minha própria trajetória, filho de mãe que prestava serviços em casas alheias, primeiro da família a ingressar no ensino superior, atravessa e legitima o trabalho. A pesquisa exige continuidade por ser orgânica e viva. Recomendo políticas que valorizem a dança e saberes sensíveis e não hegemônicos, ampliando processos educativos mais justos e equitativos.