Entre o Crédito e a Conservação: o financiamento bancário da agropecuária brasileira e as diretrizes de sustentabilidade
crédito rural; financiamento bancário; sustentabilidade; agropecuária; desmatamento.
Esta dissertação analisa em que medida os instrumentos de financiamento bancário da agropecuária brasileira são compatíveis com diretrizes de sustentabilidade, consideradas em suas dimensões normativa, operacional e empírica. O estudo parte do reconhecimento de que a agropecuária ocupa posição central na economia brasileira. Não obstante, ela também está associada a pressões relevantes sobre o meio ambiente, como mudança de uso da terra, desmatamento, emissões de gases de efeito estufa e degradação de recursos naturais. Nesse contexto, o financiamento bancário é tratado não apenas como suporte à produção, mas como mecanismo capaz de influenciar a direção dos investimentos, os incentivos associados ao uso da terra e a incorporação do risco ambiental à decisão de crédito. Metodologicamente, a pesquisa combina análise bibliométrica, análise documental e exame de normativos, relatórios institucionais e literatura especializada, além de incorporar etapa empírica baseada no cruzamento entre informações do crédito rural e dados geoespaciais de alertas de desmatamento. Os resultados indicam que o sistema brasileiro apresenta aproximação com diretrizes internacionais de sustentabilidade, especialmente na incorporação do risco ambiental à governança financeira, no uso de bases georreferenciadas, na criação de impedimentos e no fortalecimento de mecanismos de transparência. Essa aproximação, contudo, permanece parcial e desigual. A análise empírica mostra que, entre 2019 e 2025, o crédito rural manteve exposição material a áreas com alertas de desmatamento, com concentração territorial em estados do MATOPIBA e em partes da Amazônia Legal, além de forte peso de cadeias como bovinos e soja. Conclui-se que o financiamento bancário da agropecuária brasileira avançou na incorporação formal da sustentabilidade, mas ainda não alterou de modo substantivo a lógica predominante de alocação do crédito, o que indica a necessidade de instrumentos capazes de induzir padrões produtivos mais compatíveis com conservação, adaptação climática e redução de emissões.