AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE TRABALHO NA TUTORIA DO PROGRAMA MÉDICOS PELO BRASIL EM MUNICÍPIOS BRASILEIROS.
Atenção Primária à Saúde; Educação Permanente em Saúde; Tutoria Clínica; Formação em Saúde; Programa Médicos pelo Brasil.
Introdução: O Programa Médicos pelo Brasil (PMpB) constitui uma estratégia estruturante para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente em municípios caracterizados por elevada vulnerabilidade social e dificuldades históricas de provimento e permanencia de profissionais médicos. Instituído pela Lei nº 13.958/2019 e executado pela Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS), o programa articula provimento médico, formação especializada em Medicina de Família e Comunidade e acompanhamento pedagógico em serviço, com destaque para a tutoria clínica e pedagógica longitudinal. Diferentemente de modelos tradicionais de supervisão, a tutoria no PMpB assume caráter formativo, dialógico e contínuo, orientado ao desenvolvimento de competências clínicas, à aprendizagem ativa e à autonomia profissional. Objetivos: Avaliar o processo de trabalho da tutoria no PMpB, identificando suas práticas, desafios e contribuições para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. Especificamente, buscou-se descrever a atuação dos diferentes atores envolvidos, analisar suas percepções acerca da tutoria e elaborar recomendações técnicas voltadas ao aprimoramento do programa. Método: Estudo qualitativo, fundamentado na Teoria Fundamentada (Grounded Theory), conforme proposta por Strauss e Corbin (2008). O corpus empírico é composto por 91 entrevistas semiestruturadas realizadas em 42 municípios de 12 estados brasileiros, selecionados a partir de critérios de vulnerabilidade social, porte populacional e distribuição regional. Participaram médicos bolsistas, tutores clínicos e gestores locais vinculados ao PMpB. A análise dos dados será conduzida por meio de codificação inicial, focalizada e teórica, com apoio do software Atlas.ti, explorando dimensões como organização do processo tutorial, estratégias pedagógicas empregadas (MINI-CEX, modelagem clínica, feedback estruturado) e impactos percebidos na prática clínica e na organização do trabalho em APS. Resultados: A análise identificou padrões e tensões no processo de trabalho da tutoria clínica e pedagógica, sintetizados em cinco eixos formativos relacionados à governança pedagógica, continuidade formativa e vínculo territorial, desenvolvimento profissional, integração ensino-serviço e condições operacionais. Evidenciou-se que a tutoria contribui para qualificar o raciocínio clínico, reduzir o isolamento profissional e fortalecer o vínculo territorial dos médicos, ao mesmo tempo em que enfrenta limites decorrentes da rotatividade de tutores e pouca comunicação com a gestão local. Conclusões: A tutoria clínica no PMpB configura um dispositivo estratégico para o desenvolvimento profissional em serviço e para o fortalecimento da APS em territórios vulneráveis, desde que apoiada por governança pedagógica robusta, continuidade dos vínculos formativos e condições operacionais mínimas. O modelo interpretativo produzido e o policy brief decorrente do estudo oferecem recomendações para qualificar as estratégias formativas e a gestão do programa, com potencial de subsidiar decisões voltadas à consolidação de uma APS resolutiva e equitativa.