OS FATORES ASSOCIADOS AO TRATAMENTO TARDIO E INADEQUADO DE MALÁRIA FALCIPARUM NA AMAZÔNIA BRASILEIRA: UM ESTUDO TRANSVERSAL
Malária; Plasmodium falciparum; Epidemiologia; Tratamento.
A malária, embora tratável, constitui uma doença complexa e resiliente que acompanha a humanidade há mais de 500 mil anos, afetando especialmente populações vulneráveis devido à escassez ou à ineficiência das ações de controle. O tratamento oportuno e adequado não apenas previne internações e óbitos, como também contribui para a interrupção da cadeia de transmissão, ao eliminar, prevenir ou reduzir a presença de gametócitos no sangue periférico dos pacientes. No caso da malária por Plasmodium falciparum, a segunda espécie mais prevalente no Brasil e associada às formas graves da doença, a geração de gametócitos na corrente sanguínea ocorre entre sete e doze dias após o início dos sintomas. A persistência de casos dessa espécie em determinado território pode refletir a possíveis deficiências no acesso e na qualidade dos serviços de diagnóstico e tratamento, bem como fragilidades na sustentabilidade das ações de controle. Assim, investigar os fatores associados ao tratamento tardio e inadequado pode, portanto, subsidiar intervenções mais eficazes junto às populações mais atingidas. OBJETIVOS: Descrever o cenário epidemiológico da malária por P. falciparum e analisar os fatores associados ao tratamento tardio e inadequado nos estados e municípios com maior transmissão na Amazônia brasileira. MÉTODOS: Trata-se de um estudo epidemiológico observacional, com abordagem descritiva e analítica transversal, baseado em dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica – Malária (Sivep-Malária), referentes ao período de 2020 a 2023. Foram incluídos casos registrados nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, bem como nos municípios prioritários para malária falciparum, com ênfase em indicadores relacionados ao tratamento. RESULTADOS: No período analisado, os estados estudados registraram 82.714 casos de malária falciparum, sendo o Amazonas responsável pela maior proporção de notificações e o Amapá pelo menor número de casos. A maioria dos registros ocorreu em indivíduos do sexo masculino (58,8%), com idade entre 10 e 19 anos (21,3%), indígenas (49,5%) e com baixa escolaridade – até o quinto ano incompleto (23,1%) ou sem escolaridade formal (19,2%). Nenhum dos estados atingiu a meta de tratar pelo menos 70% dos casos sintomáticos dentro de 24 horas após o início dos sintomas. A adequação do tratamento, entretanto, apresentou melhora ao longo dos anos, com destaque para 2023, quando atingiu 92,9%. Entre 2020 e 2023, foram identificados 22 municípios prioritários para a malária falciparum, sendo a maioria (45,5%) localizada no estado do Amazonas. A distribuição dos casos nesses municípios seguiu perfis demográfico e socioeconômico similares aos observados na análise estadual. Em relação à oportunidade de tratamento, nenhum dos municípios alcançou a meta de 70% dos casos tratados dentro do tempo oportuno. Os melhores percentuais de tratamento adequado foram observados em Barcelos (97,8%), Iracema (96,4%) e Porto Grande (96,1%).