Financiamento do Transporte Ferroviário de Passageiros: Receitas Não-Tarifárias e Boas Práticas Internacionais
Transporte Ferroviário de Passageiros; Financiamento de Infraestrutura; Receitas Não Tarifárias; Captura de Valor Fundiário; Fundo Nacional de Desenvolvimento Ferroviário; Concessões Ferroviárias.
O transporte ferroviário de passageiros retomou centralidade na agenda de infraestrutura brasileira a partir de 2023, mas enfrenta um desafio estrutural recorrente nas experiências internacionais: a insuficiência da receita tarifária para cobrir os elevados custos de implantação e operação desses sistemas. Esta dissertação tem como objetivo identificar boas práticas internacionais de financiamento por meio de receitas não tarifárias — com destaque para a captura de valor fundiário (land value capture) — e verificar em que medida essas práticas vêm sendo incorporadas aos projetos ferroviários brasileiros mais recentes. A partir de um benchmarking internacional (Crossrail, em Londres; MTR, em Hong Kong; Grand Paris Express; e os sistemas ferroviários de Tóquio e da Sotetsu, no Japão), a pesquisa constrói um referencial teórico sobre modelos de financiamento, Farebox Recovery Ratio e instrumentos de captura de valor. Esse referencial é então aplicado, por meio de estudo de caso, a dois projetos em estágio de estruturação simultânea no Brasil: o Trem Intercidades São Paulo–Campinas (TIC Eixo Norte) e o Trem de Passageiros Brasília–Luziânia. Com base em dados primários extraídos de estudos de viabilidade econômico-financeira e de pareceres técnicos específicos sobre exploração imobiliária, o diagnóstico revela que o TIC apresenta um potencial de captura de valor fundiário estruturalmente residual — cerca de 0,4% do investimento total —, ao passo que o Brasília–Luziânia, ainda em fase de estruturação, apresenta potencial substancialmente mais elevado, embora não incorporado à decisão oficial de modelagem financeira. A dissertação resgata, ainda, o histórico brasileiro de fundos ferroviários setoriais do século XX e propõe, como contribuição original, a formalização de um Fundo Nacional de Desenvolvimento Ferroviário capitalizado, entre outras fontes, pelo patrimônio imobiliário não operacional remanescente da extinta Rede Ferroviária Federal S.A. Os resultados indicam que a maturidade institucional brasileira para a incorporação de receitas não tarifárias depende menos da disponibilidade de instrumentos jurídicos do que do momento em que tais instrumentos são considerados no ciclo de estruturação de cada projeto.