CARNES PALPITANTES: UMA TERRORIZAÇÃO DA TRAGÉDIA AS BACANTES
Terror; Tragédia; Violência; Gênero Artístico; Mensageiro.
A presente tese parte de uma investigação artístico-conceitual em prol de levantar e praticar cenicamente vias de reimaginar e repropor a tragédia grega ática clássica de Eurípides As Bacantes, em um solo teatral autoral estilizado por estratégias e saberes estéticos típicos do gênero terror e suas convenções mais fundantes: a ameaça como elaboração estética do mal e da predação; a vítima e o jogo de espelhamento emocional potencial com o espectador; a estilização do espaço como hostil através de recursos expressivos de iluminação, sonorização e enquadramentos; a tarefa estética de estilizar a violência de forma chocante ou impactante, optando por mostrá-la ou torná-la obscena. Mediante a análise de cenas distintivas de obras exemplares do gênero, a tese, propõe e distingue como categorias de análise e de composição cênica, os apelos tanatofílicos: sinistro, sórdido e macabro, enquanto os modos de estilização da violência típicos e caracterizadores do terror. A partir da análise de obras e cenas fílmicas são levantadas, identificadas e reconhecidas as estratégias estéticas articuladoras de cada apelo. A partir delas, é feita uma análise de As Bacantes que permite identificar em quais imagens e episódios da dramaturgia euripidiana eles se manifestam. Com o reconhecimento de que tanto as cenas patéticas e os apelos tanatofílicos da obra trágica de Eurípides se concentram nos relatos dos mensageiros trágicos da peça, a pesquisa mobiliza a criação de uma nova dramaturgia e espetáculo: Cume, uma reimaginação de As Bacantes saturando, dilatando e reinventando as imagens e situações dramáticas com maior potencial para o terror, bem como as personagens da peça que assumem os papeis produzidos pela violência: a ameaça sobrenatural sinistra Invocado-Dionísio, as vítimas Agave e Penteu e, sobretudo, a testemunha-sobrevivente dos horrores, o mensageiro trágico Pastorzinho. Ao optar por deslocar o protagonismo narrativo para a figura do Pastorzinho, enquanto testemunha das violências que as rememora, reconstitui, manifesta, fisicaliza e por elas é possuído, Cume reivindica a perspectiva testemunhal como posição estratégica e voz legítima para terrorização da tragédia, pois o protagonismo do mensageiro permite transitar entre as personagens, encenando epifanias e manifestações do sinistro, do sórdido e do macabro em formato de solo teatral que busca repactuar a tragédia no imaginário contemporâneo, associando-se, inscrevendo-se e se deixando permear pelo terror como um novo campo estético, cênico e imaginário de pertença do mito do massacre macabro de Penteu, da sanha sórdida das bacantes e do triunfo sanguinolento do Invocado, um Dionísio sinistro, entidade soberana de inerente violência.