Identificação e Classificação de Microplásticos no Lago Paranoá́ via Caracterização Química e Análise Multivariada
Microplásticos. Águas superficiais. Imagem Hiperespectral. Classificação.
A crescente poluição plástica tem impulsionado estudos sobre microplásticos (MPs), especialmente em ambientes de água doce urbana, onde são frequentemente introduzidos por águas residuais e pela má gestão de resíduos sólidos. A identificação desses contaminantes ainda enfrenta desafios, principalmente pela ausência de padronização metodológica. Neste contexto, o presente trabalho tem como objetivo identificar e classificar MPs em amostras de águas superficiais do Lago Paranoá (Brasília/DF), utilizando técnicas de caracterização química e modelos quimiométricos. A pesquisa também integra a rede do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas (INCTAA), voltada ao monitoramento de MPs em diferentes corpos d’água no Brasil. No escopo do estudo em rede, avaliou-se a influência de parâmetros físico-químicos como pH, temperatura, oxigênio dissolvido, clorofila-A, sólidos suspensos totais, fixos e voláteis, além do carbono orgânico dissolvido, na recuperação de MPs em seis corpos hídricos. Amostras enriquecidas com MPs padrão de PE e PA foram tratadas por oxidação e separação por densidade. A Análise de Componentes Principais (PCA) explicou 76,92% da variabilidade dos dados. A primeira componente (PC1) diferenciou ambientes com altos teores de sólidos daqueles com melhores condições de oxigenação e maior recuperação de MPs. Já a segunda componente (PC2) destacou maior recuperação em locais com predominância de matéria orgânica, em contraste com menor eficiência em ambientes impactados por sólidos fixos. Também foi realizada a otimização da etapa de oxidação da matéria orgânica por meio de planejamento experimental, testando diferentes condições de tempo e temperatura com H2O2. A eficiência foi avaliada por análise colorimétrica (RGB) nas membranas. A modelagem estatística mostrou bom ajuste (R2 = 0,8822), com efeitos significativos da temperatura e do termo quadrático do tempo. A eficiência de oxidação aumentou com o tempo e a temperatura, e, considerando o limite seguro de 60 °C para evitar a degradação de MPs, definiu-se como condição ideal a oxidação por 14 horas a 45 ºC. Por fim, foi realizada a caracterização química dos MPs em amostras tratadas do Lago Paranoá por espectroscopia μ-FTIR, imagem hiperespectral (HSI) na região do visível e modelos de classificação quimiométricos. Os espectros obtidos foram utilizados na construção de modelos PLS-DA empregando padrões de Algodão, Anodisc, PA, PE, PET, Poliéster, PP, PS e PVC. Para os dados de infravermelho, foi desenvolvida uma estratégia sequencial de classificação, em que o primeiro modelo realizou a triagem entre materiais plásticos e não plásticos, enquanto o segundo modelo foi utilizado para a discriminação entre as classes poliméricas. As amostras apresentaram predominância de polímeros como PP e PE, além da presença de PA e ocorrência pontual de PET. Já o modelo PLS-DA aplicado aos dados HSI (VIS) apresentou maior dificuldade na validação de classes associadas a polímeros incolores, como PET, PP e PS. Ainda assim, a aplicação do modelo às imagens hiperespectrais permitiu identificar regiões das membranas com indícios da presença de MPs. Os resultados obtidos demonstram a versatilidade da Quimiometria na análise de MPs, abrangendo desde o preparo de amostras e avaliação de variáveis ambientais até a identificação e classificação de materiais poliméricos a partir de diferentes técnicas instrumentais.