Banca de DEFESA: Ricardo Alexandre Pereira de Oliveira

Uma banca de DEFESA de DOUTORADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE : Ricardo Alexandre Pereira de Oliveira
DATA : 12/12/2025
HORA: 09:00
LOCAL: ZOOM
TÍTULO:

O Centro de Pesquisa Indígena e o Projeto Jaburu a partir das relações entre movimentos indígenas, ambientalismos e indigenismos


PALAVRAS-CHAVES:

Antropologia das ciências; Movimentos indígenas; Movimentos
ambientalistas; Xavante; direitos originários; Antropoceno.

 


PÁGINAS: 256
RESUMO:

Analiso na tese algumas redes que se estruturaram na virada dos anos 1980 e 1990 que
articularam lideranças indígenas, cientistas, ambientalistas, instituições de pesquisa, sonhos,
animais e biomas em torno de “projetos de fauna e flora” voltados ao reflorestamento e ao
manejo de fauna cinegética (de caça). Analiso a experiência de formação de estudantes
indígenas em Direito por meio de um convênio entre a União das Nações Indígenas (UNI) e a
Universidade Católica de Goiás (UCG), que estabeleceu a reserva de cinco vagas especiais para
estudantes que se tornariam os primeiros advogados indígenas do Brasil. Analiso também a
experiência de formação de uma primeira turma do curso de extensão em Biologia Aplicada, a
partir do mesmo convênio estabelecido entre a UNI e a UCG, junto a instituições de pesquisa
como a Embrapa, a Fundação Zoobotânica e a ESALQ-USP, que ocorreu por meio de cinco
vagas exclusivas para indígenas associados à UNI. Tendo como eixos empíricos o Centro de
Pesquisa Indígena (CPI), sediado em Goiânia (GO), e o Projeto Jaburu, desenvolvido na Terra
Indígena Xavante de Pimentel Barbosa (MT), descrevo as associações que ocorreram a partir
de segmentos do movimento indígena, do ambientalismo e do indigenismo, no contexto da
redemocratização do país. O trabalho parte do sonho do pajé Sibupá Xavante, narrado pelos
membros de algumas facções A’uwê Uptabi (povo de verdade / Xavante) como origem mítica
dessas iniciativas, para compreender como cosmologias indígenas incidiram sobre projetos de
conservação e formação técnica mediados por agentes não indígenas, representantes das
ciências naturais e do Direito. O objetivo principal foi compreender de que forma modos
distintos de autoridade, deliberação coletiva e de percepção do “social” interagiram na
formação de uma arena socioambiental, indigenista e indígena inovadora, situada na interseção
entre conhecimento científico e conhecimento indígena, com ênfase na história Xavante de
recusa do modo de vida “nacional” baseado na agricultura, seja familiar ou industrial. A história
de relações entre o povo Xavante e a sociedade nacional remonta à, pelo menos, o século XVIII,
e diversas tentativas de transformar as famílias e as comunidades desse povo de caçadores e
colhedoras em agricultores ocorreram ao longo dos séculos, seja como lavradores sertanejos,
seja como produtores vinculados ao agronegócio mecanizado. Nesse sentido, descrevo as
formas como a agricultura foi mobilizada como vetor de assimilação sociocultural desde o
início da colonização portuguesa até a ditadura militar do século XX. A pesquisa se baseia em
entrevistas junto a pesquisadores indígenas, professores universitários e ambientalistas, visitas ao território Xavante de Pimentel Barbosa e a arquivos pessoais e institucionais. Aponto para a

controvérsia que emerge de percepções divergentes entre os atores, que vão desde
caracterizações da iniciativa como projetos que “não deram certo” até avaliações de que tudo
correu plenamente bem, com resultados exitosos e memoráveis. Demonstro que pontos de
partida divergentes resultaram em efeitos distintos, que se desdobraram ao longo de muitos
anos – na verdade, quase quatro décadas. O CPI e o Projeto Jaburu constituíram experiências
precursoras de cooperação intercultural em um momento de consolidação dos direitos
originários no país, nas quais o conhecimento científico foi mobilizado como ferramenta de
fortalecimento territorial e político por diferentes povos indígenas agrupados pela UNI, pelo
Núcleo de Cultura Indígena (NCI) e pelo Núcleo de Direitos Indígenas (NDI). Enfatizo que as
concepções Xavante sobre a relação entre humanos e não humanos orientaram, em grande
medida, a formulação das ações de manejo da fauna cinegética, contrariando a suposição de um
“erro nativo” a ser corrigido pela Ciência. Demonstro que o diálogo entre cosmologias e
práticas científicas produziu efeitos interessantes, ainda que tenham frustrado os objetivos
específicos dos técnicos contratados, tanto na formação de lideranças indígenas quanto na
consolidação de políticas públicas voltadas à conservação ambiental e aos direitos territoriais.
Concluo que as experiências analisadas anteciparam debates contemporâneos sobre o
Antropoceno e a necessidade de integrar o conhecimento dos povos indígenas na construção da
resposta à emergência climática, às catástrofes ambientais, ao Antropoceno e ao
Plantationoceno. Descrevo essas iniciativas não como episódios isolados, mas como
experimentações cosmopolíticas em um momento da história planetária bastante propenso à
interconexão entre historicidades até então consideradas de maneira paralela, sem conexão
evidente.

 


MEMBROS DA BANCA:
Externo à Instituição - IVAN DA COSTA MARQUES - UFRJ
Externo à Instituição - LUIZ ANTONIO LINO DA SILVA COSTA - UFRJ
Interno - 1654174 - CARLOS EMANUEL MANZOLILLO SAUTCHUK
Presidente - 1531121 - GUILHERME JOSE DA SILVA E SA
Interno - 6400804 - HENYO TRINDADE BARRETTO FILHO
Notícia cadastrada em: 09/12/2025 14:24
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