“DO BURITI, EU FAÇO A VIOLA”: música, território e saberes tradicionais na região do Jalapão (TO)
Viola de Buriti; Jalapão; Comunidades Quilombolas; Música; Território.
Esta dissertação aborda as relações entre música e território a partir do fazer e do tocar a viola
de buriti em comunidades negras rurais e quilombolas no leste do estado do Tocantins, na região
do Jalapão. A pesquisa compreende as formas de fazer e tocar a viola de buriti como parte dos
modos de vida dessas comunidades e como forma de interpretação e elaboração sonora de
conhecimentos sobre seus territórios tradicionais e sobre o bioma do Cerrado. A pesquisa foi
desenvolvida com o trabalho de campo realizado nas comunidades quilombolas Barra de
Aroeira e Mumbuca, em Palmas e no distrito de Taquaruçu, no encontro de violeiros Café com
Viola de Buriti. Realizei ainda uma pesquisa bibliográfica e de fontes históricas em acervos de
hemerotecas digitais. Situo o território do Jalapão, com seus rios, cachoeiras, fervedouros,
serras, fauna, flora, brejos e veredas, como matriz de sentido das práticas musicais com a viola
de buriti, evidenciando a valorização das paisagens e dos modos de vida dessas comunidades
nas músicas e a presença ancestral de povos indígenas e de pessoas negras que resistiram à
escravidão na região. Descrevo e analiso as técnicas do fazer da viola de buriti, caracterizando
os conhecimentos da escolha dos talos fich que virarão violas e que envolvem conhecimentos
como os processos de vida e manejo dessa palmeira, as relações de cuidado e respeito com a
planta e com as veredas, a geografia do Cerrado e do território e um saber olhar e ouvir apurado.
Discuto a caracterização do buriti como árvore da vida para refletir sobre o entrelaçamento
entre a vida dessa palmeira e as demais vidas do território jalapoeiro. A partir das implicações
sonoras das características singulares desse instrumento, como seu cavalete móvel, a ausência
de trastes e as cordas de linha de pesca, analiso as formas de tocar a viola de buriti, suas
afinações, ritmos e toques. Reflito sobre como os violeiros da viola de buriti fabricam um
instrumento feito de uma planta do Cerrado para falar de seus territórios e de suas histórias,
trajetórias e memórias, a partir de suas relações com o território, com as diferentes vidas que o
constituem e com seus modos de vida e de ser. Concluo que as práticas musicais com a viola
de buriti são uma forma de engajamento ativo com o ambiente e com o território. As práticas
musicais com a viola de buriti carregam histórias, identidades, memórias e resistências em sua
sonoridade, seus ritmos, nos seus modos de tocar e cantar e no próprio timbre do buriti.