Conforto sensorial no vestuário sob a perspectiva de pessoas neurodivergentes
Conforto sensorial; Vestuário; Neurodiversidade; Design Sensível
O vestuário estabelece contato contínuo com o corpo e participa de experiências que envolvem aspectos físicos, sensoriais, emocionais e sociais. Para pessoas neurodivergentes, diferenças na forma de perceber e processar estímulos podem contribuir para experiências particulares de conforto e desconforto durante o vestir. Nesse contexto, esta pesquisa teve como objetivo propor sugestões projetuais para o desenvolvimento de produtos de vestuário que considerem diferentes demandas sensoriais, fundamentadas na compreensão das experiências de pessoas neurodivergentes. A investigação caracteriza-se como pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa, com utilização complementar de procedimentos quantitativos descritivos, e caráter exploratório e descritivo. O percurso metodológico compreendeu pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo com 43 participantes e levantamento exploratório de produtos de vestuário disponíveis no mercado. Os relatos dos participantes constituíram a principal fonte empírica da pesquisa e foram analisados por meio da Análise de Conteúdo de Bardin, articulada à organização lexical do corpus realizada com auxílio do IRaMuTeQ e a procedimentos quantitativos descritivos. A análise buscou identificar experiências de conforto e desconforto sensorial, relacioná-las aos elementos materiais, construtivos e de uso do vestuário, compreender estratégias utilizadas pelos participantes diante de situações de desconforto e relacionar essas experiências às características de produtos disponíveis no mercado. Os resultados indicam que a experiência sensorial do vestir não pode ser explicada exclusivamente pelas características físicas dos materiais ou por elementos isolados das peças, uma vez que os estímulos são percebidos e interpretados de maneiras distintas conforme a pessoa e o contexto de uso. Materiais, texturas, costuras, etiquetas, modelagens, sistemas de fechamento, pressão, ajustes e outros elementos construtivos participam dessas experiências, enquanto estratégias individuais de adaptação e escolha também integram a relação cotidiana com o vestuário. A análise mostra, ainda, que considerar o conforto sensorial não significa apenas eliminar estímulos percebidos como desagradáveis, mas reconhecer a diversidade das experiências e articulá-la a aspectos de funcionalidade, estilo, identidade e possibilidades de uso. A partir da integração entre conhecimento técnico, literatura, relatos dos participantes e análise dos produtos, são apresentadas sugestões projetuais voltadas a subsidiar decisões de projeto mais atentas às diferentes demandas sensoriais. Conclui-se que a compreensão das experiências vivenciadas pelas próprias pessoas neurodivergentes constitui uma fonte relevante de conhecimento para o Design e pode contribuir para ampliar as possibilidades de desenvolvimento de vestuário sensorialmente mais adequado, sem pressupor a existência de uma solução única ou universal para diferentes usuários.