A propaganda antifeminista é a alma do negócio: análise de enquadramentos em uma trajetória de sucesso
Antifeminismo; Gênero; Extrema-direita; Neoliberalismo.
A presente pesquisa adota uma perspectiva feminista de análise; a partir dela, investigamos por que o movimento feminista é enquadrado como uma ameaça social pelo antifeminismo contemporâneo brasileiro. O objetivo geral é analisar como o antifeminismo de Ana Campagnolo, personalidade política de trajetória de sucesso, constrói uma narrativa em que o feminismo é visto como ameaça social, articulando essa construção discursiva às racionalidades neoliberal e neoconservadora e à estratégia política da extrema-direita brasileira. Especificamente, busca-se: (1) situar teoricamente o antifeminismo como um backlash ao movimento feminista, constituído no Brasil como estratégia política da extrema-direita; (2) analisar a trajetória de Ana Campagnolo como a de uma "empreendedora de si", nos termos foucaultianos, demonstrando como ela transforma experiências pessoais de exclusão (reprovação no mestrado, rompimento com sua orientadora) em capital político, construindo o antifeminismo simultaneamente como narrativa, mercadoria e plataforma eleitoral; e (3) identificar e analisar, por meio da metodologia de enquadramentos (frames), as estratégias discursivas mobilizadas em seus cinco livros antifeministas (2019–2025) para construir o feminismo como ameaça. A análise identificou onze frames, organizados em três eixos: (1) ameaça moral e religiosa, (2) político-institucional e (3) identitário, evidenciando que o antifeminismo de Campagnolo opera como estratégia política eficaz de produção de subjetividades, de reconhecimento e de capital político. Com as análises, identificamos que o antifeminismo não é mera reação, mas uma formação ideológica que produz narrativas, subjetividades e coalizões políticas próprias. Constatamos também que, para Campagnolo, o antifeminismo funciona simultaneamente como convicção, mercadoria (livros, cursos, Clube Antifeminista) e plataforma eleitoral, e que essas três dimensões se retroalimentam. Por fim, evidenciamos como o antifeminismo produzido por mulheres complexifica a compreensão do fenômeno, exigindo análises que unam teoria de gênero, economia política e metodologia discursiva.