Banca de DEFESA: Carlos Eduardo Dantas da Costa Lage

Uma banca de DEFESA de DOUTORADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE : Carlos Eduardo Dantas da Costa Lage
DATA : 24/06/2026
HORA: 14:00
LOCAL: Online
TÍTULO:

Estresse, Memória e Metacognição.


PALAVRAS-CHAVES:

estresse; memória; Prática de Lembrar; funções executivas; organização semântica; neurocognição; metacognição


PÁGINAS: 269
RESUMO:

Pesquisas em ciência cognitiva têm demonstrado consistentemente que a Prática de Lembrar — uma estratégia de estudo que envolve a evocação ativa de informações previamente codificadas — melhora a retenção de longo prazo e a acessibilidade dos traços de memória. Ao mesmo tempo, um corpo robusto da literatura mostra que o estresse agudo pode prejudicar o desempenho da memória ao modular o funcionamento hipocampal, por meio da saturação dos receptores de glicocorticoides pelo cortisol e ao desorganizar processos executivos mediados pelo córtex pré-frontal por mecanismos relacionados às catecolaminas. Esta tese de doutorado investigou a interseção entre esses dois domínios: se a Prática de Lembrar pode mitigar os efeitos deletérios do estresse sobre a memória e o funcionamento executivo. O Capítulo 1 apresenta o arcabouço teórico que orienta a tese. Ele situa a Prática de Lembrar dentro de um problema neurocognitivo mais amplo: como a recordação estruturada pode ser preservada quando o estresse agudo altera as condições fisiológicas e executivas sob as quais a evocação ocorre. Em vez de tratar o desempenho de memória apenas como a quantidade de informação evocada, o capítulo introduz a organização semântica como uma dimensão central da estabilidade da memória. Ele também estabelece a extensão translacional da tese ao conectar estudos de recordação e estresse realizados em laboratório às condições metacognitivas e instrucionais que determinam se estratégias de estudo eficazes são reconhecidas e adotadas em contextos educacionais. O Capítulo 2 apresenta uma replicação e extensão metodológica do achado relatado por Klier e Buratto (2023), no qual o benefício da Prática de Lembrar sob estresse parecia depender da dificuldade dos itens. O estudo testou se itens difíceis apresentariam uma vantagem seletiva decorrente da recordação prévia quando a memória fosse posteriormente avaliada sob estresse agudo, ao mesmo tempo em que abordou limitações do delineamento anterior. A interação hipotetizada entre estresse, dificuldade dos itens e Prática de Lembrar não foi replicada. Itens difíceis não apresentaram a vantagem esperada baseada em recordação sob estresse, indicando que o efeito original era menos estável do que inicialmente assumido. De modo importante, esse resultado nulo foi teoricamente e metodologicamente informativo: ele mostrou que a tese não poderia se apoiar apenas na dificuldade dos itens como principal via explicativa. Esse resultado motivou um refinamento conceitual do projeto, deslocando o foco da quantidade de itens recordados para a organização estrutural da memória como um índice potencialmente mais sensível de vulnerabilidade ao estresse e de resiliência da Prática de Lembrar. O Capítulo 3 constitui a principal contribuição experimental da tese. Com base nos achados nulos do Capítulo 2, o estudo deslocou o foco da dificuldade dos itens e da quantidade recordada para a organização estrutural da memória sob estresse agudo. A questão central foi se a Prática de Lembrar sustentaria não apenas a acessibilidade de itens individuais, mas também a organização semântica da recordação quando a memória fosse testada sob estresse agudo. Os participantes foram expostos ao Trier Social Stress Test for Groups (TSST-G), e a evocação semanticamente organizada foi avaliada por meio do índice Adjusted Ratio of Clustering (ARC). Os resultados mostraram que a Prática de Lembrar aumentou a organização semântica durante a evocação livre final, e essa vantagem organizacional permaneceu estável sob estresse agudo, que não produziu o prejuízo esperado na quantidade geral de recordação nem na organização semântica. Esse padrão sugere que a Prática de Lembrar pode ter fortalecido os traços de memória a um nível em que eles permaneceram relativamente estáveis sob ativação fisiológica do estresse. Esse achado redefine o papel da Prática de Lembrar na tese: sua relevância não se restringe a aumentar o número de itens lembrados, mas se estende à preservação da estrutura por meio da qual a informação é recuperada. Nesse sentido, o Capítulo 3 fornece a principal evidência experimental de que a Prática de Lembrar pode contribuir para uma representação de memória mais estável e organizada sob condições de estresse agudo. O Capítulo 4 amplia a tese da experimentação controlada em laboratório para uma investigação ecológica sobre estratégias de estudo na educação pública brasileira. Enquanto os Capítulos 2 e 3 examinaram a memória sob estresse experimentalmente induzido, o Capítulo 4 abordou o problema translacional que decorre dos achados laboratoriais: se estratégias apoiadas pela pesquisa cognitiva são reconhecidas, recomendadas e adotadas em contextos educacionais reais. Dados de survey com estudantes do Ensino Fundamental II, estudantes do Ensino Médio e professores de escolas públicas do Distrito Federal foram utilizados para examinar o uso relatado de estratégias, a eficiência percebida dessas estratégias, as recomendações docentes, as crenças sobre testes, a ansiedade diante de avaliações e características contextuais do ambiente de aprendizagem. Os resultados mostraram uma predominância consistente de estratégias passivas familiares, especialmente reler e grifar, enquanto estratégias baseadas em evocação foram menos frequentemente relatadas como parte das rotinas de estudo. Esse padrão não refletiu uma ausência completa de consciência metacognitiva. Ao contrário, estudantes e professores demonstraram reconhecimento parcial do valor da Prática de Lembrar, especialmente os estudantes, mas esse reconhecimento não foi convertido em uso real ou recomendação sistemática. O capítulo, portanto, identifica um padrão de dissonância instrucional: uma lacuna entre evidência cognitiva, julgamento metacognitivo, orientação instrucional e comportamento de estudo estável. Ao situar a seleção de estratégias dentro de restrições socioeconômicas e educacionais mais amplas, os achados sugerem que a adoção da Prática de Lembrar depende não apenas do conhecimento individual, mas também de práticas institucionais capazes de converter evidências da ciência cognitiva em rotinas duráveis de aprendizagem autorregulada. Em conjunto, os quatro capítulos posicionam a tese dentro de um arcabouço translacional mais amplo. O trabalho progride da integração teórica e reavaliação metodológica ao refinamento experimental e à aplicação ecológica. Ao longo desses níveis, a questão unificadora central evolui: como a Prática de Lembrar pode contribuir para a estabilidade e a organização da memória sob estresse agudo, e como crenças metacognitivas e restrições instrucionais moldam a adoção dessa estratégia nas complexas realidades da educação formal? Essa progressão conecta a investigação laboratorial da organização da memória resiliente ao estresse ao desafio educacional de converter evidências da ciência cognitiva em comportamento estável de aprendizagem autorregulada.


MEMBROS DA BANCA:
Presidente - 1143325 - LUCIANO GRUDTNER BURATTO
Interna - 1665441 - GOIARA MENDONCA DE CASTILHO
Externo à Instituição - CHRISTIAN HAAG KRISTENSEN - PUC-RS
Externo à Instituição - ANTÔNIO JAEGER - UFMG
Externa à Instituição - ROBERTA EKUNI DE SOUZA - UENP
Notícia cadastrada em: 15/06/2026 12:02
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