VIGILÂNCIA DE PRIMATAS NÃO-HUMANOS NO BRASIL: A IMPORTÂNCIA DOS PRIMATAS NA DETECÇÃO PRECOCE DO VÍRUS DA FEBRE AMARELA
febre amarela, vigilância, epidemiologia, primatas, saúde pública
A Febre Amarela (FA) é uma arbovirose que causa uma doença infecciosa não contagiosa, que no Brasil se mantem em dois ciclos de transmissão: um ciclo urbano, que é simples, do tipo homem-mosquito-homem, onde o homem é o único hospedeiro de importância epidemiológica, transmitida e disseminada pelo Aedes aegypti. O segundo é um ciclo silvestre, mais complexo, com envolvimento de várias espécies de mosquitos que são responsáveis pela transmissão, diferenciando de acordo com o Continente: por exemplo na África, os transmissores são mosquitos do gênero Aedes e nas Américas são mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que vivem nas copas das árvores. Neste ciclo os macacos atuam como hospedeiros, amplificadores e disseminadores do vírus (STRODE GK, 1951; HERVÉ et al., 1983; DEGALLIER et al., 1992; MONDET et al., 1966). A infecção do ser humano ocorre de forma acidental quando este entra em ambientes silvestres, não vacinado previamente. A FA possui uma longa história no Brasil, com registros desde o século XVII. A primeira epidemia de FA descrita no Brasil ocorreu em 1685, em Recife. A doença teria sido trazida em um barco procedente de São Tomé, na África, com escala em Santo Domingo, nas Antilhas. Naquela época, acreditava-se que a doença surgia por geração espontânea e medidas como sangria e queima de ervas foram tentadas para conter a doença em humanos, mas foram inócuas (COSTA et al, 2011). Entre 1686 e 1692, Salvador viveu um período cruel em que 25 mil pessoas foram infectadas e próximo a 900 morreram. Em 1691, teve início a primeira campanha sanitária oficial do Brasil (FRANCO, 1969; LÖWY, 2006). As medidas tomadas incluíam acender fogueiras nas ruas, aplicar cal virgem no chão das casas onde haviam ocorrido mortes por doença e defumá-las durante a noite para purificá-las (FRANCO, 1969; COSTA et al, 2011). Após um século de calmaria, em 1849, um navio americano vindo de New Orleans, que estava infectado com o vírus da FA, aportou no Brasil, resultando em um grave problema de saúde pública, com a doença se espalhando novamente pelas cidades portuárias, incluindo a cidade do Rio de Janeiro (FRANCO, 1969; TEIXEIRA, 2011). Em 1850 foi criada a primeira Comissão de Engenheiros Sanitários para promover melhorias sanitárias, com objetivo de propor medidas necessárias para a conservação da saúde pública. Esse é o primeiro relato sobre a organização da vigilância e controle da FA no país (FRANCO, 1969; LÖWY, 2006). Na sequência foi criada uma estrutura institucional, visando prevenir e controlar novas epidemias, como medidas estavam o conhecimento social da época, a clínica médica e necropsias de cadáveres para observar as lesões de órgãos e tecidos acometidos pela doença (BENCHIMOL J, 2001; COSTA et al, 2011). Durante o período de 1850 a 1902 casos e óbitos por FA ocorreram todos os anos na cidade do Rio de Janeiro, estimando-se 58.063 óbitos pela doença. No século XX, mais precisamente em 1902, quase mil pessoas vieram a óbito no Rio de Janeiro, vítimas da doença (FRANCO, 1969; LÖWY, 2006). Em 1903 o médico sanitarista Oswaldo Cruz foi nomeado para a Diretoria Geral de Saúde Pública, na época a FA era o principal problema sanitário da capital federal. Na época o médico sanitarista implementou medidas de controle de mosquitos e iniciou uma campanha que ajudou a controlar a doença. No entanto, a FA continuou a ser um problema de saúde pública no Brasil ao longo do século XX (BENCHIMOL J, 2001). Em 1934, a febre amarela surgiu no estado da Bahia, Amazonas, Pará e Mato Grosso, na sequência emergindo para o Leste e Sul ameaçando as regiões mais populosas do País. Em 1935 emergiu nos estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo. No ano seguinte chegou ao Paraná e depois a Santa Catarina. Em seguida deslocou se para o estado do Rio de Janeiro fechando um ciclo de 7 anos. Em 1939 o vírus retornou ao Espírito Santo no Vale do Canaã, onde foi descoberto o ciclo silvestre em 1932 (FRANCO, 1969). O ciclo silvestre foi descoberto pela Fundação Rockefeller em 1932 no início da sua atuação no Brasil. Nesse ano houve um surto epidêmico no Vale do Canaã, estado do Espírito Santo, região onde não havia registro de Aedes aegypti. Nesse momento que descobriu a existência do ciclo silvestre da FA, derrubando a hipótese de uma doença estritamente urbana. Na época foi um marco importante para compreensão da doença no Brasil revelando que os primatas não-humanos eram hospedeiros da doença e que poderiam ser acometidos (SOPER, 1932; SOPER, 1937). Na década de 1940 o perfil epidemiológico da FA no Brasil foi modificado, com implicações nas estratégias de vigilância, de prevenção e de controle da doença. No contexto da FA urbana o desafio estava pautado no controle da doença pela interrupção da cadeia de transmissão por meio da vacinação e controle vetorial, o reconhecimento do ciclo silvestre em 1932 impôs desafios ainda mais complexos, cujas ações de detecção e resposta são determinadas por uma dinâmica de transmissão própria, com novos atores envolvidos e fatores determinantes e de risco ainda pouco compreendidos (SOPER, 1933; COSTA et al, 2011). Sabendo da identificação do ciclo silvestre na década de 30, em 1999 após período de elevada transmissão de FA na região Centro-oeste do Brasil, com detecções de casos humanos e morte de macacos concomitante, o Brasil passou a registrar a mortandade de PNH como alerta para o risco de FA para detectar precocemente o vírus antes do acometimento de humanos e controlar a transmissão no país (ROMANO, 2011). O século XXI foi marcado por surtos de magnitude variáveis, decorrentes dos processos de reemergência do vírus na região extra-amazônica, registrados em ciclos irregulares. Nas duas últimas décadas, as detecções resultaram nos surtos mais expressivos já documentados na história da FA silvestre no Brasil (ARAÚJO, et al. 2011; BRASIL, 2021). Nesse sentido é que se propõe este estudo com o objetivo de descrever a série histórica de 1999 a 2022 a partir dos registros de primatas não-humanos doentes ou mortos notificados ao Ministério da Saúde com o intuito de avaliar os indicadores operacionais e epidemiológicos da estratégia de vigilância de PNHs suspeitos de FA no Brasil. Ainda pretende-se propor recomendações para melhoria da vigilância epidemiológica da FA no Brasil a partir dos resultados encontrados nesse estudo.