Pathos, tempi e ficção da escultura na pintura renascentista em grisaille
Grisaille. Renascimento italiano. Bilderatlas Mnemosyne. Aby Warburg. Georges Didi-Huberman. Pintura escultórica. Escultura pictórica
A presente dissertação investiga a pintura em grisaille no Renascimento italiano entre os séculos XIV e XVI, a partir da análise de um conjunto de imagens produzidas por Giotto di Bondone, Andrea Mantegna, Fra’ Bartolomeo, Raffaello Sanzio e Andrea del Sarto. A pesquisa parte das tensões visuais observadas entre diferentes conjuntos de imagens — afrescos, óleo sobre tela e sobre painel, retábulos, programas decorativos e ciclos monumentais — para examinar de que modos a grisaille pode produzir regimes específicos de visualidades e temporalidades. Mais do que compreender a grisaille como recurso técnico destinado à imitação da escultura, busca-se analisá-la como um dispositivo capaz de articular questões relativas à memória, à sobrevivência das formas, à experiência dos tempos e às relações entre pintura, escultura e arquitetura. O trabalho fundamenta-se, em parte, em premissas metodológica e no princípio associativo de análise das imagens desenvolvido por Aby Warburg, especialmente a partir dos conceitos de Pathosformel e da acepção warburguiana da Nachleben der Antike, articulados aos desdobramentos teóricos propostos por Georges Didi-Huberman acerca da sobrevivência das imagens, das temporalidade heterogêneas e da dimensão fantasmática da representação. São também mobilizadas reflexões de Leon Battista Alberti, Leonardo da Vinci e Giorgio Vasari, permitindo examinar a grisaille tanto em sua relação com o debate renascentista sobre pintura e escultura. A pesquisa dialoga ainda com as reflexões de Jacques Derrida acerca da dimensão parergonal da imagem, fundamentais para a compreensão da grisaille como um espaço de indeterminação situado entre diferentes regimes visuais, espaciais e temporais. A hipótese central considera a grisaille como um regime de pensamento visual no qual a suspensão da cor produz efeitos específicos de distância, latência e sobrevivência. Ao aproximar a pintura sem coincidir plenamente com a escultura, a grisaille instaura um espaço liminar no qual diferentes camadas temporais permanecem simultaneamente ativas. Nesse sentido, a grisaille não apenas representa formas oriundas da Antiguidade greco-romana, mas torna visível a sobrevivência dessas formas por meio de processos de reaparição, deslocamento e transformação. A redução cromática não implica empobrecimento da imagem, mas a constituição de um regime visual próprio, capaz de tornar perceptíveis relações entre memória e presença, petrificação e fossilização, permanência e movimento. A dissertação organiza-se em três capítulos. O primeiro examina as relações entre pintura, escultura e relevo nos tratados renascentistas e em obras de Giotto, investigando a grisaille como ficção escultórica e como forma de fixação da memória. O segundo dedica-se à análise das aparições da grisaille no Bilderatlas Mnemosyne, sobretudo em obras de Raffaello e Mantegna, buscando compreender seu papel na constituição de relações entre sobrevivência, alegoria e temporalidade. O terceiro concentra-se na dimensão ontológica da grisaille por meio da análise de obras de Fra’ Bartolomeo, Raffaello e del Sarto, examinando a grisaille como espaço liminar entre presença e ausência, imagem e fantasma, memória e atualização. Conclui-se que a grisaille não constitui apenas uma técnica pictórica ou um recurso ornamental, mas um dispositivo visual capaz de tornar visível a coexistência de temporalidades heterogêneas no interior da imagem.