POÉTICAS EM TERRAS QUEIMADAS: PROCESSOS DE CRIAÇÃO JUNTO ÀS CINZAS
cinzas vegetais; cerâmica; poéticas das paisagens; cartografia; cerrado
Esta tese investigou poéticas visuais a partir das materialidades das cinzas vegetais encontradas em paisagens queimadas do cerrado, na região do Distrito Federal, Brasil. O cerrado é hoje o bioma que detém o título de maior, mais diverso e mais ameaçado dentre as savanas do planeta. Diante de um contexto marcado por ameaças, emergências e destruição, a pesquisa propôs o desenvolvimento de práticas artísticas em diálogo com essas paisagens em ruínas, colhendo os vestígios deixados pelo fogo e buscando traços de vida nas cinzas. Essas materialidades foram, então, retransformadas por meio de novos processos de criação, que também envolveram o fogo como agente. O percurso artístico se estruturou em torno de três gestos fundamentais: caminhar, coletar e criar com as cinzas. Esses gestos se materializaram em ações coletivas e individuais na paisagem, e, além disso, resultaram em produções artísticas escultóricas, especialmente em cerâmica. Os processos foram registrados por meio de diários, fotografias e vídeos. A pesquisa adotou o método cartográfico, privilegiando a implicação da artista nas paisagens, os processos de criação em deslocamento e a escrita de artista, que articulou narrativas visuais e textuais sobre as experiências teórico-práticas vivenciadas ao longo do percurso. Diante de um mundo em chamas, a pesquisa partiu do questionamento do que e como a arte ainda poderia produzir, dialogando com debates contemporâneos sobre a criação de imagens em tempos de catástrofe. A proposta buscou escutar outros mundos, não apenas os humanos, e dar visibilidade às cinzas enquanto imagens-testemunho apesar de tudo. As cinzas mostraram-se como agentes, arquivos, testemunhas e destino do que se arruína. Os atos de criação desenvolvidos ao longo da pesquisa possibilitaram a construção de lugares, mas também a defesa da vida a partir das cinzas e das experiências em paisagens queimadas.