Imagens-Visões em Liber divinorum operum, de Hildegard von Bingen: o mundo como experiência de Deus
Hildegard von Bingen; Liber divinorum operum; Cosmologia medieval; ImagensVisões; Iconologia.
Esta dissertação analisa as iluminuras do Liber divinorum operum de Hildegarda de Bingen (1098–1179) como imagens-visões: estruturas visuais que não ilustram a revelação, mas participam de sua tessitura e transmissão. O corpus é composto pelas dez miniaturas preservadas no manuscrito da Biblioteca Statale di Lucca (MS 1942), produzido no início do século XIII, posteriormente à morte da autora, e aqui compreendido como testemunho material da recepção e da elaboração visual de sua obra. A pesquisa argumenta que essas iluminuras ultrapassam a função ilustrativa ao participarem da construção de um conhecimento cosmológico, no qual o mundo se apresenta como experiência de Deus: manifestação ordenada, inteligível e sensível da presença divina na criação. A abordagem adotada é iconográfica e iconológica, fundamentada na metodologia de Erwin Panofsky e articulada à análise da materialidade do manuscrito, da organização espacial das composições e das relações entre imagem e texto. O exame identificou três eixos estruturantes: as estruturas cosmológicas e os princípios de organização visual; a articulação entre macrocosmo e microcosmo; e a relação entre imagem, ordem e revelação. Conclui-se que as dez miniaturas constituem um programa visual unitário e progressivo, da cosmologia relacional da Parte I à síntese escatológica da Parte III, na qual a figura da Caritas emerge como princípio organizador do percurso teológico. A pesquisa devolve à imagem medieval um lugar de produção intelectual historicamente reservado ao texto, contribuindo para a compreensão do Liber divinorum operum como forma legítima de elaboração do saber teológico, inscrita nas práticas intelectuais e espirituais do contexto monástico medieval.