Esperança Garcia como filtro dos sonhos: caminhos para esperançar uma educação em direitos humanos
educação em direitos humanos; direitos humanos; Esperança Garcia; feminismo negro; esperançar
A Educação em Direitos Humanos (EDH) foi instituída como política pública brasileira em 2003, mas sua efetivação enfrenta dois desafios apontados pela literatura: um epistemológico — o que se ensina, ou seja, qual concepção de direitos humanos se adota — e um metodológico — como se ensina direitos humanos. Esta tese se insere nesse campo com o objetivo de enfrentar ambos os desafios, apresentando caminhos para a construção de uma educação em direitos humanos transgressora, feminista e antirracista, que tem em Esperança Garcia o filtro dos sonhos possíveis. Esperança Garcia foi uma mulher negra escravizada no Piauí que, em 1770, escreveu uma carta denunciando maus-tratos e é hoje reconhecida como a primeira advogada do Brasil. Resgatando sua trajetória, o estudo reconstrói uma arquitetura intelectual, política, afetiva e ancestral do esperançar como práxis de uma educação em direitos humanos transgressora, feminista e antirracista. Metodologicamente orientada pela autorrecuperação de bell hooks, a pesquisa narra práticas e iniciativas de educação em direitos humanos — como o Curso de Especialização em Direitos Humanos Esperança Garcia, as Campanhas “Esperançar: Vidas Negras Importam, Mulheres Negras Precisam Ser Escutadas” e “Esperançar com as Escolas”, a criação de uma imagem para Esperança Garcia e seu reconhecimento como primeira advogada do Brasil a partir do Projeto na Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB/PI. A tese está organizada em três capítulos: o primeiro disputa a própria noção de direitos humanos, propondo uma concepção de direitos humanos enraizada na história e na luta do povo negro brasileiro, e não apenas em declarações universais distantes da realidade; o segundo enfrenta o desafio metodológico de como ensiná-los, a partir do diálogo entre Paulo Freire e bell hooks, tendo o amor, o envolvimento e o entusiasmo como elementos de uma educação transgressora; o terceiro traz a práxis, com Esperança Garcia como filtro dos sonhos de práticas de educação em direitos humanos. Como contribuição, o estudo busca evitar a captura do discurso dos direitos humanos por uma perspectiva universalista descolada das lutas concretas, afirmando o esperançar como compromisso com a prática da libertação — uma esperança que não espera, mas que se organiza, ensina e resiste.