Esta tese investiga as vivências de pessoas em situação de rua na cidade do Gama (DF),
no contexto da pandemia de COVID-19, buscando responder à seguinte questão: como
vivem e sobrevivem as pessoas em situação de rua na cidade do Gama (DF), e o que suas
histórias de vida revelam sobre as contradições e desafios do fenômeno da população em
situação de rua? O objetivo geral é analisar as vivências da população em situação de rua
no Gama (DF), no contexto da pandemia de COVID-19, compreendendo seus impactos e
suas implicações para as políticas públicas. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa,
tendo como método central a história de vida (Bertaux, 2010; Josso, 2004), ancorada no
materialismo histórico-dialético e nas epistemologias contra-coloniais de Nego Bispo
(2015) e Ailton Krenak (2019, 2020). Foram ouvidos três participantes — Ranniah, Fábio
e Thiago — reconhecidos como lideranças comunitárias no território do Gama/DF, por
meio de entrevistas em profundidade realizadas em dois momentos (2020-2021 e 2024),
análise documental e observação participante. A tese está organizada em oito capítulos,
que percorrem desde a fundamentação histórica e conceitual da população em situação de
rua no Brasil, passando pela análise do direito à cidade e das políticas públicas no Distrito
Federal, pela discussão sobre saúde mental, pandemia e interseccionalidade, pelo relato
da experiência do coletivo Semente Social, até a apresentação e discussão aprofundada
das histórias de vida e as considerações finais. Os resultados evidenciam que a situação
de rua não é fruto de escolhas individuais, mas de processos estruturais que articulam
racismo, desigualdade econômica, desemprego, violência institucional e insuficiência das
políticas públicas. As trajetórias de Ranniah, Fábio e Thiago revelam que, mesmo nas
condições mais adversas, é possível reinventar a vida, construir afetos, exercer liderança e
lutar por direitos. A pesquisa demonstra que o direito à cidade é sistematicamente negado
à população em situação de rua, que as políticas públicas existentes são insuficientes,
fragmentadas e frequentemente higienistas, e que a pandemia de COVID-19 escancarou a
omissão histórica do Estado, ao mesmo tempo em que revelou a potência da sociedade
civil, por meio de iniciativas como o Semente Social, na produção de cuidado e dignidade
onde o Estado se ausenta. A tese propõe três eixos norteadores para políticas públicas
voltadas à população em situação de rua: combate ao racismo e às marcas de
discriminação; promoção da saúde mental de forma transversal, integral, universal e
acessível; e usufruto pleno e democrático da cidadania e participação social efetiva.
Conclui-se que a população em situação de rua não resulta de um processo contingente,
mas de uma formação histórica marcada por exclusão estrutural e descontinuidade das
políticas públicas, exigindo não apenas ações assistenciais, mas transformações
estruturais orientadas pela justiça social, pela efetivação de direitos e pela garantia do
direito à cidade.