Psicagogia y los límites de la consolación Muerte y pérdida en tres tragedias de Eurípides
Eurípides, tragedia, morte, luto, consolação
A consolação é entendida como uma prática humana que busca aliviar a dor da perda,
especialmente a perda representada pela morte de um ser querido. Ela se materializa em
textos da Antiguidade e será sintetizada no gênero das Consolationes, que se consolida na
época romana, especialmente nos escritos de Cícero, Sêneca ou Plutarco. A tragédia grega
não costuma ser estudada em profundidade como um gênero consolatório, para além de uma
série de exempla de atos consolatórios, e sim somente como um gênero cujo principal
objetivo seja oferecer consolação. No entanto, a dor pela morte e a inquietação que ela gera
são temas permanentemente presentes nas tragédias. Na crítica antiga, considerava-se que a
tragédia possuía um efeito psicagógico, na medida em que era uma forma de guiar a alma
dos espectadores para que atravessasse esses sentimentos de dor e perda, representados em
cena. Na obra de Eurípides, este é um problema no qual se insiste particularmente. Nesta
pesquisa, propomos a leitura de três tragédias do poeta grego, Alceste, Héracles, e As
Bacantes, como textos consolatórios, partindo do pressuposto de que Eurípides dá uma
reviravolta singular ao tema da consolação.
A tragédia grega, como gênero literário e instituição cultural, apresenta certas
particularidades que a tornam singular para a reflexão sobre esse fenômeno. Em primeiro
lugar, seu caráter performativo, ou seja, o fato de serem textos criados para serem encenados,
cujas representações seguem uma série de convenções que devem ser respeitadas. Em
segundo lugar, as tragédias são representadas em um contexto ritualístico que abrange
dimensões sociais, políticas, religiosas e filosóficas. Em terceiro lugar, por sua natureza
dialógica e pública, a tragédia é um espaço privilegiado para encenar as discussões que
preocupam a coletividade naquele momento. O contexto de representação da obra de
Eurípides torna as problemáticas do medo da morte e da dor pela perda altamente relevantes:
o contexto político e social da guerra, o Iluminismo ateniense do século V, no qual se
questionam os pressupostos filosóficos da religião tradicional grega, e a própria evolução
dessa forma de arte. Assim, a forma como Eurípides reelabora o material mítico que compõe
suas tragédias permite-lhe criar uma abordagem original sobre a consolação, pois se distancia
dos discursos e práticas que costumam oferecer uma visão tranquilizadora sobre a vida após
a morte, como os cultos mistéricos ou os cultos órficos, e da ordem metafísica do mundo
encontrada na estrutura da religião tradicional e nos relatos míticos. Assim, a obra de
Eurípides retrata um mundo bastante caótico, onde os deuses e sua interferência no mundo
humano são perturbadores e imprevisíveis; diante disso, o ser humano fica à mercê de sua
própria mortalidade, e o único remédio possível e precário reside no encontro humano, que
se manifesta em diferentes níveis, desde práticas institucionalizadas, como os rituais de
hospitalidade, troca de presentes e as comemorações coletivas e, até, em última instância, a
amizade, ou philía, o encontro entre semelhantes.
Para interpretar essas obras de Eurípides como textos que tratam da consolação, utilizamos
as abordagens do que é conhecido como estudos sobre o luto (bereavement studies). A partir
de uma perspectiva interdisciplinar, que integra áreas como a psicologia, a enfermagem, a
sociologia e a filosofia, os estudos sobre o luto repensam a relação com os falecidos,
distanciando-se da compreensão tradicional do luto como uma série de etapas que é preciso
superar; pelo contrário, este é repensado como um vínculo que pode ser continuado e
ressignificado. Da mesma forma, utilizamos os modelos de consolação que oferecem uma ferramenta de análise do próprio ato consolatório, bem como dos textos consolatórios. Dentre
estes, empregamos o Modelo Contextualizado de Consolação (Contextualized Model of
Consolation), que propõe cinco categorias temáticas nas quais se pode classificar a
abordagem dos textos consolatórios no momento de proporcionar alívio: a resiliência de
quem sofre, a busca por uma forma ideal de luto, uma reelaboração da biografia do falecido,
uma visão de mundo que dê sentido à morte e uma reintegração à comunidade daqueles que
estão de luto. Dessas cinco categorias, utilizamos três cuja presença é mais pertinente nas
tragédias analisadas: a forma ideal de luto, a visão de mundo que dá sentido à morte e a
reintegração à comunidade.
Dessa forma, Alceste constitui um ponto de partida privilegiado para essa discussão,
principalmente porque é a única das tragédias preservadas em que a morte aparece como
personagem e como tema central da obra. O tecido mítico em que a obra se desenvolve
permite levantar a questão do medo da morte e da dor de uma forma particular: o que
aconteceria se outra pessoa pudesse morrer no meu lugar? Assim, a morte vicária de Alcestis
no lugar de seu marido, o rei Admeto, permite a Eurípides explorar o que chamamos de uma
fenomenologia do luto. A condição paradoxal de Admeto de estar lamentando uma morte
que, ao mesmo tempo, lhe permite viver, faz com que alguns aspectos da dor pela perda de
sua esposa se destaquem, como a necessidade de reconfigurar seu papel privado em casa
como marido e pai, bem como seu papel público como rei da cidade. Por fim, a resolução
milagrosa e o aparente final feliz da obra questionam até que ponto os remédios contra a
morte funcionam, seja o resgate heroico de Alcestis dos braços da morte por parte de
Héracles, ou as súplicas aos deuses, bem como as repetidas referências aos cultos mistéricos
e órficos.
No Héracles, por sua vez, questiona-se a possibilidade da consolação ao retratar a radical
reviravolta na sorte do protagonista, que começa como o herói autônomo e salvador,
favorecido pelos deuses, que, graças à força dos seus braços, protege sua família e consegue
superar todas as adversidades e matar seus inimigos; depois, vítima da loucura enviada pelos
próprios deuses, torna-se a causa de sua própria desgraça, assassinando sua família. Após
essa mudança de fortuna, Héracles surge como o sofredor inocente, e sua única saída é o suicídio. Héracles consegue afastar a ideia do suicídio graças, em primeiro lugar, a uma
reformulação de sua relação com os deuses e, em segundo lugar, à intervenção de seu amigo,
Teseu. Assim, a tragédia questiona a ideia da teodiceia e destaca o papel essencial da philía
para a consolação. Diante da desgraça sem igual do herói, continuar com a vida torna-se
possível graças à oferta de acolhimento e purificação que Teseu lhe proporciona.
As Bacantes, última obra da produção de Eurípides, encena uma dimensão coletiva da
consolação e dá uma reviravolta na possibilidade da consolação ao colocar em risco a própria
reintegração dos que sofrem. A resistência do jovem rei Penteu à chegada de Dionísio à
cidade de Tebas e à instauração de seus cultos faz com que a ordem da cidade seja subvertida.
Isso leva à destruição da cidade e da família real. Os cultos a Dionísio surgem como uma
forma de comemoração, pois o deus busca reivindicar a memória de sua mãe, cujo túmulo
em chamas precede o conjunto da ação. Assim, restringir a possibilidade da comemoração
coletiva acarreta um rasgo no tecido social. Essa destruição do tecido social coloca em risco
a possibilidade de qualquer consolação. Penteu é assassinado pelas mãos de sua própria mãe,
que é tomada pela loucura báquica. Os sobreviventes da tragédia, Ágave, mãe e assassina de
Penteu, e Cadmo, patriarca da cidade, são privados da possibilidade de se reintegrar a
qualquer comunidade. Assim como no Héracles, a ação dos deuses surge como errática e
alheia a toda moralidade humana, pelo que, mais uma vez, toda teodiceia fica em suspenso.
Ao estudar essas obras como textos consolatórios, constatamos que Eurípides, em primeiro
lugar, faz uma análise minuciosa da dor humana diante da perda que a morte representa. Essa
dor obriga a reestruturar a forma como os homens e as mulheres que perdem seus entes
queridos se relacionam com a realidade. Seus pressupostos metafísicos devem ser
reinterpretados. Os heróis, os reis e as famílias se transformam após a perda. Da mesma
forma, a figura dos deuses e sua interferência na vida humana devem ser repensadas. Não
são deuses benevolentes cujo favor possa ser influenciado por preces. Pelo contrário, toda
intervenção dos deuses no mundo humano é errática e disruptiva, alheia a qualquer ordem
moral esperada. O único consolo possível para os seres humanos desamparados acaba sendo
o encontro com seus semelhantes.