Carbonatos relacionados à atividade hidrotermal no Rio Grande do Norte: interação de geofluidos com o embasamento cristalino
Interação fluido-rocha, problema da dolomita, travertinos, mineralização de carbono, magnesita, rochas máfico-ultramáficas
O sistema de travertinos do Cabugi está localizado na porção central do Estado do Rio
Grande do Norte, nordeste do Brasil, nas proximidades do município de Lajes, e
representa um sistema carbonático relacionado ao magmatismo Macau, de idade
Cenozóica. Este estudo apresenta a primeira investigação sistemática do sistema de
travertinos do Cabugi, incluindo observações de campo, análises petrográficas,
difratometria de raios X, microssonda eletrônica, avaliação quantitativa de minerais por
microscopia eletrônica de varredura e dados de catodoluminescência. Os resultados
revelam dois subsistemas deposicionais paralelos, ricos em Mg e com direção NW,
denominados F1 e F2, desenvolvidos ao longo de lineamentos tectônicos. O sistema F1
inclui uma zona proximal essencialmente dolomítica. Essa porção compreende
travertinos em forma de domo, do tipo fissure-ridge, com laminações concêntricas e
verticais, brechas hidráulicas e tectônicas, e intensa alteração diagenética, refletindo forte
interação fluido–rocha pós-deposicional. A área intermediária do sistema F1 também é
predominantemente dolomítica, composta por travertinos laminados e fácies mistas
carbonato–siliciclásticas com gretas de ressecamento e rizoturbação, indicando exposição
subaérea episódica e retrabalhamento detrítico. O sistema F2 apresenta uma porção
proximal que corresponde a uma fábrica carbonática subaquosa, alcalina, rica em Mg e
associada a condutos de surgência hidrotermal. Nesse ambiente, fluidos hidrotermais
interagindo com atividade microbiana formaram boundstones de dolomita e magnesita,
brechas tectônicas e rudstones intraclásticos sob influência de desgaseificação de CO₂ e
atividade sísmica. Na porção distal, o sistema F2 transiciona para um ambiente raso e
marginal dominados por atividade microbiana, produzindo trombólitos de dolomita e
magnesita. A dolomita é a fase primária predominante no sistema F1, ocorrendo como
dolomita sindeposicional com grau intermediário de ordenamento catiônico e composição
estequiométrica ou aproximadamente estequiométrica. Em contraste, a magnesita é a fase
primária dominante nos carbonatos do sistema F2, sendo parcialmente substituída por
dolomita eodiagenética estequiométrica ou aproximadamente estequiométrica, também
com grau intermediário de ordenamento catiônico. A abundância de dolomita e magnesita
como fases minerais primárias indica elevado suprimento de Mg e altas razões Mg/Ca,
derivados do magmatismo basáltico ativo e da interação de fluidos hidrotermais com
rochas máfica-ultramáficas do embasamento. Por outro lado, a presença de dolomita rica
em Ca, calcita, barita e polimorfos de sílica como fases diagenéticas tardias sugere
enriquecimento em Ca, Si e Ba no fluido, além de empobrecimento em Mg e redução
progressiva da razão Mg/Ca ao longo da evolução geoquímica do sistema. Isso está
provavelmente relacionado a um estágio diagenético tardio, ocorrido durante o
enfraquecimento progressivo do magmatismo basáltico e após eventos de dolomitização
secundária. Nessa etapa, houve contribuição de fluidos meteóricos epigênicos pobres em
Mg e de fluidos hidrotermais hipogênicos que, ao longo do tempo, passaram a interagir
mais intensamente com rochas gnáissicas siálicas do embasamento, reduzindo a
lixiviação e contribuição de rochas máficas no sistema de travertinos do Cabugi.