CARACTERIZAÇÃO MINERALÓGICA E GEOQUÍMICA DE OCORRÊNCIAS DE TERRAS RARAS NO MACIÇO GRANÍTICO SERRA DA MESA, GOIÁS, BRASIL
Terras raras, granito tipo A, mineralogia, intemperismo, argilo-minerais, depósitos tipo adsorção iônica.
Os elementos terras raras (ETR) são relativamente abundantes na crosta terrestre; entretanto, concentrações economicamente viáveis são incomuns. Nas últimas décadas, a demanda global por ETR aumentou significativamente em função dos avanços tecnológicos e da expansão das energias renováveis. A forte concentração geográfica da produção mundial tem gerado instabilidade no suprimento, reforçando a necessidade de identificar novos recursos. Nesse contexto, este estudo avalia as características mineralógicas e geoquímicas das ocorrências de ETR+Y no Maciço Granítico Serra da Mesa (MGSM), granito-tipo da Subprovíncia Tocantins, na Província Estanífera de Goiás, Brasil central, e investiga seu potencial para mineralização do tipo adsorção iônica (IA-type).
O MGSM é composto predominantemente por um biotita-monzogranito enriquecido em ETR+Y, apresentando características geoquímicas típicas de granitos tipo A. Foram realizadas análises petrográficas, microssonda eletrônica (EPMA), microscopia eletrônica de varredura (MEV), geoquímica de rocha total (ICP-MS), difração de raios X (DRX) e extração de Oxidos de Terras Raras em etapa única, aplicadas a rochas frescas, saprólitos, perfis de intemperismo e sedimentos associados.
Os principais minerais portadores de ETR+Y identificados no granito parental incluem allanita, bastnasita-(Y), fluorcarbonatos, xenotima-(Y), zircão e fergusonita-(Y), apresentando ampla variabilidade composicional. Bastnasita-(Y) e xenotima exibem os maiores teores de ETR+Y, atingindo até 74,2% e 65,1% em peso, respectivamente. Fluocarbonatos ocorrem frequentemente como produtos de alteração da allanita, indicando mobilização de ETR+Y associada a fluidos ricos em F e CO₂ sob condições hidrotermais. Evidências texturais, como bordas de alteração e baixos totais analíticos em EPMA, sugerem processos de hidratação, metamictização e neoformação mediada por fluidos, que podem aumentar a suscetibilidade desses minerais ao intemperismo.
As análises de rocha total indicam concentrações médias de 1084 ppm de ETR+Y no granito. Nos perfis de intemperismo, os teores variam entre 330 e 1485 ppm, sendo o maior enriquecimento observado no horizonte intermediário (horizonte B) do perfil SMZ-8, onde os valores atingem 1485 ppm. Os padrões normalizados ao condrito revelam fracionamento magmático moderado e enriquecimento localizado em ETRP. As anomalias de cério mostram valores positivos de Ce/Ce* nos horizontes superiores e anomalias negativas nas zonas de enriquecimento, consistentes com a imobilização do Ce em condições oxidantes e a migração descendente dos ETR.
As análises por DRX demonstram que caulinita e illita são os principais argilominerais associados à concentração de ETR nos saprólitos. Os resultados da extração em etapa única indicam que até 62% do total de ETR+Y e até 73% dos ETRP ocorrem na forma trocável, especialmente no perfil SMZ-8, confirmando que a adsorção iônica em argilominerais é o principal mecanismo de concentração. A maior proporção de ETRP na fração trocável reflete seu comportamento preferencial de adsorção em relação aos ETRL nas condições geoquímicas predominantes.
A combinação de (i) enriquecimento primário em minerais acessórios portadores de ETR, (ii) alteração hidrotermal favorecendo a desestabilização mineral, (iii) condições tropicais de intemperismo e baixas taxas de denudação que favorecem o desenvolvimento de perfis espessos e (iv) altas proporções de ETR+Y produto de troca iônica nos saprólitos indica que o MGSM representa um alvo promissor para mineralização do tipo adsorção iônica. As características geoquímicas e mineralógicas observadas são comparáveis às descritas para depósitos de tipo adsorção iônica do sul da China e para outros maciços graníticos da Província Estanífera de Goiás, reforçando o potencial econômico do Maciço Granítico Serra da Mesa.