Análise geológica e morfoestrutural da estrutura de impacto Araguainha, Brasil
Crateramento por impacto; Geologia estrutural; Soerguimento central; Assimetria
A estrutura de impacto Araguainha (AIS) é o remanescente erosional de ~40 km de diâmetro da maior estrutura de impacto confirmada da América do Sul. A AIS foi formada em um alvo misto cristalino-sedimentar na porção norte-noroeste da Bacia do Paraná, Centro-Oeste do Brasil, entre 252–259 Ma. Foi realizado mapeamento geológico-estrutural, com especial destaque para a análise de novos e extensos afloramentos expostos por obras na rodovia estadual MT-100, dentro e ao redor da AIS. Combinado com uma investigação multimétodológica que empregou geofísica aerotransportada, sensoriamento remoto, análise de lineamentos e modelagem da forma aparente do traçado do contorno da estrutura, isso proporcionou um mapa geológico atualizado, ampliou o inventário estrutural e permitiu a investigação da influência do arcabouço estrutural regional preexistente no desenvolvimento da morfoestrutura de primeira ordem da AIS. A formação das feições morfológicas e estruturais mais proeminentes nas diferentes seções – região da borda externa, seção intermediária e soerguimento central – da AIS está associada aos estágios de escavação e de modificação do processo de craterização. Grandes blocos delimitados por falhas dominam os domínios externos da AIS, com os Blocos do Grupo Passa Dois (PDGBs) na região da borda externa se assemelhando a deslizamentos complexos mobilizados pela gravidade. É improvável que a AIS seja uma estrutura do tipo peak-ring, como sugerido anteriormente. O núcleo norte do soerguimento central pode ser dividido em uma zona de megablocos estruturalmente diversa, com raras injeções de rochas de fusão por impacto e ocorrências de pelo menos três tipos de brechas de impacto, incluindo suevito e brecha lítica polimítica, que por sua vez recobrem um piso de cratera aparentemente coerente, porém dobrado e falhado, formado por embasamento (meta)sedimentar. A AIS e seu soerguimento central, este último podendo atingir cerca de 20 km de largura, são feições (estruturalmente) assimétricas. O desenvolvimento da assimetria morfoestrutural da estrutura foi fundamentalmente controlado pela anisotropia pré-impacto do alvo. No entanto, não se pode excluir uma contribuição de impacto oblíquo para a assimetria observada. O arcabouço estrutural pré-existente do alvo é caracterizado principalmente por lineamentos proeminentes com orientação NE–SW e NW–SE, que podem ser vinculados sobretudo a estruturas relacionadas à Faixa Paraguai e, em menor grau, ao Lineamento Transbrasiliano sob a porção NNW da Bacia do Paraná. Essa estruturação pré‑impacto do alvo resultou em um traçado aparente da borda da estrutura que não é circular, sendo esse melhor representado por um eneágono irregular. Portanto, a AIS é reconhecida como o remanescente erosional de uma cratera de impacto poligonal. Esses resultados destacam novos aspectos dos intrincados processos envolvidos na formação de grandes estruturas de impacto complexas em alvos heterogêneos, como a importância das feições anisotrópicas do alvo – incluindo estratificação e/ou fraturas e falhas – no condicionamento dos principais aspectos morfoestruturais dessas estruturas.