Profundidade de anisotropias crustais heterogêneas avaliada através de trama cataclástica na borda da zona de cisalhamento Igarassi, Província Borborema (NE Brasil)
Província Borborema, Zona de Cisalhamento Igarassi, plúton Serra da Lagoinha, deformação cataclástica, distribuição de tamanho de grão.
A Zona de Cisalhamento Igarassi (ZCI), também denominada Zona de Cisalhamento
Boqueirão dos Cochos, é uma estrutura transcorrente de direção NE-SW, com cinemática
predominantemente sinistral, situada no Domínio Transversal da Província Borborema (NE
do Brasil), entre as zonas de cisalhamento regionais Patos e Pernambuco. Ao longo de sua
borda ocorre o plúton Serra da Lagoinha, que se trata de um plúton cálcio-alcalino de alto K
com cerca de 200 km² de área exposta, e que ocorre intrudindo metapelitos, xistos e gnaisses
do embasamento. Embora a história dúctil do plúton seja relativamente bem documentada,
sua trama rúptil permanecia pouco explorada. Esta pesquisa apresenta uma abordagem
integrada que inclui mapeamento estrutural de campo, análise petrográfica e microestrutural,
e análises quantitativas de distribuição de tamanho de grão (GSD) em seções delgadas
orientadas, com o objetivo de investigar a origem, a extensão espacial e o número de eventos
responsáveis pela deformação cataclástica registrada no plúton. O plúton Serra da Lagoinha
pode ser classificado como um biotita-monzogranito, com mineralogia composta por 15% de
oligoclásio (An25), 35% de K-feldspato com lamelas de pertita, 25% de quartzo e 20% de
biotita, localmente alterada para clorita. Foram identificados cinco estágios progressivos de
deformação cataclástica, desde o fraturamento incipiente intragranular (Estágio 1) até a
brecha caótica (Estágio 5), classificados segundo os critérios de Woodcock & Mort (2008) em
protocataclasito (Estágios 2-3), mesocataclasito (Estágio 4) e brecha caótica (Estágio 5). As
distribuições de tamanho de grão das amostras analisadas exibem padrão unimodal
consistente, com tamanho médio de grão entre 40 e 55 µm, e os valores de D (inclinação da
regressão pela power-law) variam entre 1,04 e 1,55, com coeficiente de determinação (R²)
superior a 0,95 em todas as amostras. Esse padrão indica que os fragmentos pertencem a
uma única população gerada por um evento cataclástico progressivo, e não por múltiplos
episódios de reativação sobrepostos, o que é evidenciado pela ausência de modas
secundárias ou quebras nas curvas cumulativas. Os resultados demonstram que a Zona de
Cisalhamento Igarassi permaneceu ativa como estrutura rúptil após a consolidação do plúton,
com a zona de dano se estendendo por várias centenas de quilômetros para o interior do
plúton. Isso evidencia que zonas de cisalhamento de escala crustal podem transmitir
deformação para blocos crustais adjacentes durante os estágios finais da orogênese,
contribuindo para a compreensão dos mecanismos de reativação tectônica e da evolução
térmica e mecânica da crosta durante o resfriamento.