Modelagem magnetotelúrica 3D do Orógeno Araçuaí e da margem leste do Cráton do São Francisco: arquitetura elétrica litosférica e implicações geodinâmicas
Orógeno Araçuaí; Inversão magnetotelúrica 3D; Estrutura elétrica profunda; Memória litosférica; Gondwana Ocidental.
A evolução geodinâmica do Orógeno Araçuaí, um importante exemplo de orógeno confinado, está no centro de um amplo debate na literatura. De um lado, o clássico modelo "quebra-nozes" sustenta uma evolução baseada no Ciclo de Wilson, com subducção oceânica e colisão; de outro, sugere-se uma orogenia intracontinental, baseada em uma crosta média termicamente fluida e enfraquecida (hot and weak plateau). Para contribuir com esse debate a partir de evidências físicas profundas, esta tese investiga a arquitetura elétrica da litosfera na zona de transição entre a margem leste do Cráton do São Francisco e o núcleo metamórfico do orógeno. O estudo apresenta modelos de resistividade tridimensionais (3D), derivados da inversão de dados magnetotelúricos (MT) de banda larga e longo período adquiridos em 36 estações ao longo de dois perfis regionais. A forte tridimensionalidade estrutural foi indicada pela análise do Tensor de Fase (valores de skew e de fase mínima). A confiabilidade dos modelos finais apoia-se na análise de estabilidade e sensibilidade. A robustez das principais anomalias foi avaliada pela sua recuperação consistente frente a diferentes modelos iniciais de semiespaço, bem como pela substituição dessas feições por blocos resistivos, o que indicou sua relevância estrutural para o ajuste dos dados. Para delimitar a resolução em profundidade, a inserção progressiva de camadas condutoras horizontais (HCS) indicou a sensibilidade do método até o manto litosférico, restringindo a interpretação a cerca de 84 km. Os modelos 3D revelam uma litosfera heterogênea, contrastando com a premissa de uma crosta média unificada, difusa e dúctil. No setor oeste, blocos de alta resistividade elétrica (~10.000 Ω·m) mapeiam a extensão em subsuperfície do embasamento arqueano-paleoproterozoico (Cráton do São Francisco e Bloco Guanhães), sustentando sua interpretação como anteparos reológicos rígidos (backstops) que resistiram à deformação neoproterozoica. Adjacentes a esses blocos, destacam-se pronunciadas anomalias condutivas de alto ângulo (Steep Lithospheric Conductors - SLCs) que mergulham para leste. Estas estruturas conectam-se, em superfície, às ocorrências ofiolíticas da Formação Ribeirão da Folha e atravessam toda a crosta em direção ao manto. A geometria 3D dessas feições representa uma importante assinatura fóssil da paleossutura colisional, compatível com o canal de subducção do extinto Oceano Adamastor. A leste, o núcleo orogênico exibe um padrão em mosaico: pilares hiper-resistivos (> 5.000 Ω·m), associados às raízes compartimentadas do Arco Magmático do Rio Doce, intercalam-se com condutores crustais alinhados ao preenchimento anatético do Complexo Nova Venécia. A ausência de uma camada condutiva sub-horizontal contínua enfraquece a hipótese do platô intracontinental. Em contrapartida, as anomalias elétricas translitosféricas, somadas à detecção de assinaturas condutivas na transição crosta-manto, fornecem suporte físico para o modelo tectônico de subducção, compatível com processos de recuo da placa (slab retreat) e seu desprendimento pós-colisional (slab break-off). A preservação dessas heterogeneidades reforça o conceito da memória litosférica, sugerindo que as paleossuturas do Araçuaí não cicatrizaram totalmente, mas atuaram como zonas crônicas de fraqueza que guiaram o subsequente rifteamento do Oceano Atlântico Sul, apoiando a interpretação de um Ciclo de Wilson completo.