Psicologia comunitária e mudança social: contribuições da pesquisa-ação participativa
psicologia comunitária; pesquisa-ação participativa; mudança social; promoção da saúde; justiça social; Sul Global
O reconhecimento crescente das origens sociais dos problemas de saúde e saúde mental favoreceu o surgimento de abordagens voltadas à mudança social, como a psicologia comunitária e a pesquisa-ação participativa, que envolvem membros de comunidades oprimidas na coconstrução de intervenções destinadas a transformar suas condições de vida. No entanto, a relevância dessas intervenções para gerar mudanças sociais ainda é pouco investigada na literatura. Esta dissertação, composta por dois estudos, analisa as contribuições da psicologia comunitária e da pesquisa-ação participativa, amplamente utilizada nesse campo, para a promoção de mudanças sociais.
O primeiro estudo é uma revisão narrativa que explora os potenciais e os limites de diferentes estratégias utilizadas pela psicologia comunitária para promover a justiça social, incluindo prevenção, empowerment e advocacia política. Os resultados mostram que várias abordagens se baseiam em um paradigma neoliberal que contribui para a manutenção do status quo, como intervenções preventivas centradas na resiliência ou nos déficits das comunidades, bem como intervenções focadas no capital social e no empowerment individual. As intervenções mais promissoras foram aquelas que articulavam justiça distributiva e processual, como as intervenções de empowerment comunitário inspiradas em Paulo Freire e os esforços de advocacia política coconstruídos com comunidades oprimidas em defesa de políticas de redistribuição. O segundo estudo é uma revisão de escopo que mapeia as mudanças sociais buscadas e alcançadas pela pesquisa-ação participativa na promoção da saúde no Sul global, bem como suas formas de avaliação, as estratégias de
mudança mobilizadas e os contextos de implementação. Foram analisados 17 estudos. Os resultados confirmam o compromisso da pesquisa-ação participativa com grupos oprimidos, assim como sua presença em todos os continentes do Sul global, especialmente na América Latina. Os estudos apresentam uma diversidade de estratégias e mudanças sociais, principalmente intermediárias, apesar da limitada avaliação de seu impacto, nível de concretização e durabilidade. A psicologia comunitária e a pesquisa-ação participativa mostraram-se promissoras para gerar mudanças sociais, mas ambas precisam se engajar em uma análise crítica e em uma melhor avaliação do alcance transformador desuas intervenções, a fim de não alimentar ilusões que favoreçam a manutenção do status quo.