TRAUMAS SILENCIADOS: VIOLÊNCIA NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA, APEGO ADULTO E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO EM MULHERES BRASILEIRAS
violência na infância e adolescência; apego adulto; estratégias de enfrentamento; psicopatologia desenvolvimental.
O presente estudo investigou as relações entre violência na infância e adolescência, estilos de apego adulto e estratégias de enfrentamento em 215 mulheres cisgênero brasileiras adultas, recrutadas por conveniência via formulário online. Fundamentado nos referenciais da psicopatologia desenvolvimental e da perspectiva interseccional, o estudo testou o papel mediador e moderador do apego adulto na relação entre violência precoce e enfrentamento, e examinou se raça/cor e renda familiar moderavam essas associações. Foram utilizados o ICAST-R, a EBRAPEG-A, o COPE Breve, o PANAS e questionário sociodemográfico com campo aberto para diagnóstico psiquiátrico autorrelatado; as análises incluíram correlações de Spearman, testes de Welch, qui-quadrado e modelos de equações estruturais com bootstrapping, conduzidos no R Studio. Os resultados revelaram prevalência expressiva de vitimização: 93% das participantes relataram ao menos um tipo de violência antes dos 18 anos — psicológica (73%), física (64,2%), sexual (62,3%) e negligência (46,5%). Observou-se dissociação sistemática entre o relato comportamental dos atos e a autopercepção de vitimização, indicando processos de normalização cultural da violência. As correlações entre apego e enfrentamento foram significativas, porém de magnitude fraca. A violência psicológica e sexual associaram-se a maior apego temeroso; a sexual também ao apego desinvestido; a violência física não se associou a nenhum estilo de apego. Todos os tipos de violência associaram-se a maior enfrentamento desadaptativo, sem efeito sobre o adaptativo — padrão consistente com o princípio de equifinalidade da psicopatologia desenvolvimental. Nos modelos de mediação e moderação, o apego temeroso foi o único mediador robusto na relação entre negligência e enfrentamento desadaptativo (β = 0,054; p = 0,025), e o apego seguro moderou o impacto da violência física sobre o enfrentamento desadaptativo (β = 0,039; p = 0,048). Nenhuma moderação por raça/cor ou renda familiar foi identificada, resultado interpretado à luz das limitações amostrais para investigar hipóteses interseccionais. Os achados posicionam o apego temeroso como mecanismo intermediário clinicamente relevante e fundamentam intervenções voltadas à redução do repertório de enfrentamento desadaptativo em mulheres com histórico de violência precoce.