“Não mudou a minha vida, mudou como eu vejo as coisas”: reconfigurações subjetivas na integração de experiências com ayahuasca em contextos cerimoniais urbanos
ayahuasca; integração; psicodélicos; psicologia clínica; subjetividade
Há diferentes sentidos atribuídos ao conceito de “integração” de experiências psicodélicas na literatura internacional. Ainda assim, é recorrente a ideia de que processos de integração podem potencializar benefícios e reduzir potenciais danos associados a experiências adversas. De modo geral, as propostas de pesquisa no campo buscam compreender o fenômeno e desenvolver estratégias de apoio para o período pós-experiência, ajudando as pessoas a retornarem à vida cotidiana, elaborarem sentidos sobre o que viveram e incorporarem aprendizados no dia a dia. Ainda predomina no campo uma abordagem característica do Norte Global voltada para a construção de tratamentos com psicodélicos, o que evidencia a lacuna de estudos que abordem especificidades de contextos do Sul Global, especialmente considerando que, na América Latina, a ayahuasca é regulamentada para uso ritualístico e religioso e circula majoritariamente em settings cerimoniais. Com base em uma abordagem qualitativa, este estudo investigou como ocorrem processos de integração a partir da perspectiva de participantes que tiveram experiências com ayahuasca em contexto cerimonial. Foram realizadas entrevistas com onze pessoas que haviam participado de cerimônias com ayahuasca há pelo menos seis meses em um centro espiritual neoxamânico, além de imersão em campo de um ano com intenção de caracterizar o setting cerimonial em questão. Os dados das entrevistas foram analisados por meio de Análise Temática Reflexiva, resultando em quatro temas: (1) “É trazer à presença” (2) Reconhecimento do Eu e seus processos de diferenciação; (3) Reconhecimento do Eu-Tu nos vínculos; e (4) Reconhecimento do Eu no Cosmos. Esses achados articulam sentidos compartilhados sobre integração, interpretados à luz de referenciais que favorecem leituras mais atentas à complexidade de suas dimensões relacionais, éticas e existenciais. Com isso, o estudo oferece contribuição heurística ao campo, ajudando a refinar perguntas e a aprofundar discussões futuras sobre integração em contextos cerimoniais.