Construção de um Instrumento para a Avaliação da Autoestima Infantojuvenil
autoestima; crianças; adolescentes; desenvolvimento de instrumentos
A autoestima constitui um importante construto investigado na psicologia devido à sua relação com processos de adaptação, desenvolvimento de habilidades e impactos em diferentes áreas da vida, incluindo desempenho acadêmico, funcionamento social e saúde mental. Definida como uma atitude positiva ou negativa em relação ao próprio self, sua formação envolve múltiplos fatores associados à percepção de competências e características individuais em diferentes contextos. Evidências indicam que a autoestima apresenta relativa estabilidade ao longo do tempo. Na infância e adolescência, fases marcadas por intensas mudanças no desenvolvimento, a avaliação precoce desse construto torna-se especialmente relevante, uma vez que baixos níveis de autoestima estão associados a maior risco de depressão, ansiedade e comportamentos antissociais, entre outros desfechos. No contexto brasileiro, observa-se escassez de instrumentos atualizados e com evidências robustas de validade e fidedignidade voltados à avaliação da autoestima infantojuvenil, o que reforça a necessidade de desenvolvimento de medidas adequadas à população. Diante disso, o presente estudo teve como objetivo apresentar as etapas iniciais para a construção de um instrumento de avaliação da autoestima em crianças e adolescentes. A pesquisa foi organizada em dois manuscritos: o primeiro consiste em uma revisão sistemática da literatura sobre instrumentos de avaliação da autoestima, e o segundo descreve as etapas de construção e os resultados preliminares do novo instrumento. No Manuscrito 1, a revisão da literatura identificou 10 instrumentos utilizados para avaliar autoestima ou construtos relacionados em crianças e adolescentes. Observou-se variação quanto ao número de itens (10 a 72) e à estrutura dimensional, incluindo medidas unidimensionais de autoestima global e instrumentos multidimensionais com até oito domínios. Em termos psicométricos, a maioria dos estudos investigou evidências de validade baseadas na estrutura interna e consistência interna, sendo menos frequentes análises de estabilidade temporal ou invariância. Esses resultados indicam diversidade metodológica, mas também evidenciam a escassez de instrumentos recentes e psicometricamente robustos voltados especificamente à população infantojuvenil no contexto brasileiro, reforçando a necessidade de desenvolvimento de novas medidas. No Manuscrito 2, são apresentadas as etapas iniciais de construção de um instrumento destinado à avaliação da autoestima em crianças. Após o levantamento da literatura e a definição constitutiva e operacional do construto, foram elaborados os itens do instrumento, estruturados em um formato que combina diferencial semântico e escala analógico-visual, buscando facilitar a compreensão e a resposta por crianças e adolescentes. Os itens foram posteriormente submetidos à avaliação por juízes especialistas. A análise de concordância, realizada por meio do coeficiente Kappa de Fleiss, indicou concordância moderada quanto à clareza dos itens (K = 0,62) e concordância substancial quanto à adequação dos itens às facetas teóricas (K = 0,507). Em seguida, foi conduzida análise de validade semântica com 20 participantes, sendo 10 crianças (8–12 anos) e 10 adolescentes (13–16 anos), cujos resultados indicaram concordância substancial quanto à compreensão dos itens. De modo geral, os resultados fornecem evidências iniciais favoráveis à qualidade do conteúdo do instrumento. Como próximos passos, prevê-se a aplicação da medida em amostras ampliadas, bem como a realização de análises psicométricas voltadas à investigação da estrutura interna, consistência interna e evidências de validade baseadas nas relações com variáveis externas, com o objetivo de consolidar o processo de desenvolvimento e uso do instrumento